sábado, 23 de maio de 2015

Noite 15

A falta de luz diz-me que "ela" foi de fim-de-semana enquanto eu fiquei preso a um trabalho que não me apetece.
A rua está invulgarmente animada hoje e eu vim de calções e chinelos, com uma t-shirt da queima das fitas 2010. Em 2010 nem eu nunca cá tinha passado, ou tendo, não prestei atenção. Essa é a magia actual desta rua, a representação substancial de um futuro incógnito. O meu prolongamento cronológico e o envolvimento implícito a uma circunstância que ainda não conheço.
O desenho que mais me marcou até hoje tinha uma frase cuja tradução despretensiosa é: 'estou apaixonado por alguém que ainda não conheço.'. Na verdade, foi esse desenho e a interpretação a si associada os gatilhos que despoletaram tudo o que me aconteceu desde então.
Hoje li um texto do Miguel Esteves Cardoso que falava das rotinas monótonas enquanto antítese da morte. Eu acho que a antítese da morte é a esperança, viva ou vã, naquilo que ainda está por acontecer. É a ideia de que algures, sem saber onde, está alguém com quem partilhamos intimidade e segredos de amanhã. O destino é uma banalidade que não nos diz respeito, como era esta rua em 2010.
E eu aqui, de pernas flectidas em cima do banco, com um telemóvel entre os joelhos, longe de atributos e peripécias futuras, dono de algo que o será então.

Lembro-me já dele no futuro com a saudade que hei-de ter então.
Love someone i don't know yet.

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