Acabei de me encher de coragem e desci o Penedo da Saudade, escada por escada, à procura daquela velha mesa de pedra onde tantas vezes me deitei apaixonado. Desci devagarinho, na escuridão, porque se eu caísse e fodesse o joelho aí é que era o cabo dos trabalhos!
Já o tinha descido há pouco mais de um ano, durante o dia, e verificado que é sempre o vazio que nos fere mais a saudade. Mas há um ditado, que inventei agora mesmo, que diz que nunca se deve procurar nada durante o dia. E há outro, que inventei há uns dias, em que me tento convencer a mim mesmo que se repetir muitas vezes o mesmo gesto, o resultado final será completamente diferente.
A mesa não estava lá, nem a mesa nem a mística, nem o frio estarrecedor, nem a companhia, nem a escuridão estava escura igual. Esta noite vi melhor o que lá falta. E umas velas arrepiantes espalhadas pelo chão, acesas, deixaram perceber que há um espaço na história da minha vida partilhado por uns outros loucos quaisquer, pouco tempo antes deles terem acontecido.
A vida dá muitas voltas, demasiadas para tão escassos e tão previsíveis endpoints. Quem diz endpoint diz foda-se! Foda-se até é mais bonito, diga-se de passagem.
Mas desci, e senti o peso de tudo o que fiz de errado nos ombros e na cabeça. Sentei-me nos bancos que não deveriam lá estar, e recordei o que fui nesta cidade antes de ali ter estado a primeira vez. Recordei nos bancos, onde não poderia estar sentado se as coisas não fossem como são, os sonhos que me têm atormentado e dificultado a iniciativa de auto-penitência de que tomei posse recentemente.
De qualquer das formas, sem psicólogos, psiquiatras e finalmente sem os comprimidos de merda, será sentado naquele banco, nesta hora sossegada de patetas e fingidores, que darei sozinho o seguimento necessário a esta auto-penitência que me fará alguém melhor. Todas as noites que não trabalhe, até me apaixonar por outra pessoa, mesmo que seja eu próprio.
Slipped, The National
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