Ela é magra e de média altura para o género e idade. Cada vez mais magra, por força da conjuntura. Haverá quem lhe ache o sorriso perfeito; isso depende sempre da opinião. Tem olhos verdes debaixo de uns grandes óculos de massa que ainda não consegui perceber se são graduados. Terminou há um mês um namoro de sete anos e o respectivo rapaz já está com outra pessoa. Ela só mudou de penteado.
Está sempre a chorar. Chora por tudo, chora por nada, chora porque sim todos os dias a toda a hora. A primeira vez que a vi chorar compulsivamente levei-a a um sítio mais sossegado para que não o fizesse à frente de quem não compreende. Desde então todos os dias me pede opinião sobre tudo e decora as respostas como uma beata decalca a Bíblia.
Faz perguntas particulares a que não quero responder. Outras não sei. Para as perguntas gerais invento respostas vagas. Para as específicas invento outra coisa qualquer. Interrompo-lhe as histórias incómodas porque deduzo o final sozinho. Tenho coisas concretas a dizer-lhe sobre tudo aquilo, mas não o faço. Não me precipito em termos de comparação nem confundo facilmente a estrada da Beira com a beira da estrada.
Hoje passei e encontrei-a a chorar porque a vizinha de um doente qualquer tinha um problema qualquer. Ela contou-me, mas não percebi bem a história. Não percebi se o problema era dela, do doente, da vizinha, ou meu. Foi uma confusão e perdi-lhe os sentidos a meio.
A tristeza profunda decompõe-nos a sensibilidade. A sua empatia circunstancialmente exagerada adultera a minha. Gosto disso!
She's broken and overpowered.
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