Podia dizer que nunca me senti assim; volta e meia estaria a ser um tanto ou quanto exagerado.
"Sempre foi característica das minhas síndromes de privação chegar ao dia 12 e ter um rasgo de algo parecido com criatividade, uma explosão mental de pensamentos e uma implosão dolorosa de sentimentos e emoções."
"Sempre foi característica das minhas síndromes de privação chegar ao dia 12 e ter um rasgo de algo parecido com criatividade, uma explosão mental de pensamentos e uma implosão dolorosa de sentimentos e emoções."
14.12.2011
Dia 12: Quando me apaixono por alguém, comparo sempre o mundo de
então, com o mundo como eu o percebia antes de ter conhecido essa pessoa, ou
antes de estar apaixonado por ela. A verdade, nua e crua, é que é sempre
exactamente igual, sem tirar nem pôr. O mesmo vazio, a mesma sensação de
incompletude, o mesmo arrastar quotidiano lânguido e esforçado, as mesmas
incapacidades, a mesma percepção limitada do que é não ser. Pena que só me
aperceba disso à noite, quando estou cansado.
14.10.2008
Dia 12: Vivo exactamente da mesma maneira que sempre tenho vivido. Não mudei nada.
Vivo em buracos de mundo, entre fantasias inócuas e infantis. Entre espaços de qualquer coisa, incoerentes, ilógicos; vivo nos intervalos impossíveis do que não quero ser. Vivo entre devaneios interrompidos do que os outros sentem.
Sou um intérprete de momentos, um imitador de ideologias, uma insignificância com identidade. Vivo porque é assim que sou: um “isto” sem asa para se agarrar.
Vivo de não viver de facto. Como naquele espaço morto das histórias, em que viramos páginas. Como quando levantamos a caneta e pomos os pontos nos ii.
Dia 12: Observo o meu vizinho, por entre a transparência triste da janela do meu quarto. Leva pela mão um bebé a aprender a andar. Não sei se ria de ternura se chore de pena da criança. Isto que agora começa a acontecer-lhe não tardará a percebê-lo incompleto, limitado. Pergunto-me, com a inconsciência irritante de quem não compreende, se não é maldade dos pais todos do mundo trazerem alguém ao Universo. Que maldade tão doce! Que malvadez compensadora! Que desumanidade indulgente…
12.10.2006:
Dia 12: Sinto-me
um poeta sem óculos, sem caneta e sem folhas e sem palavras.
Porque um poeta pode ser poeta sem rimas, se se sentir poeta, uns óculos lhe
bastem…
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