Somos controlados pela atracção física, pelo desejo lascivo e pela ousadia da novidade, que se sobrepõem com demasiada facilidade aos castelos de cartas construídos sobre milhares de horas de conversa.
Às quatro sabemos de antemão que vamos perder o comboio das cinco e mantemo-nos impávidos, coloquiais, como se nada fizesse prever o pânico das seis menos um quarto. Depois acabou, não se fazem viagens de comboio à noite no inverno. Às seis menos cinco lançamos uma cara de parvos, fingimos aquele ar incrédulo e ignorante de quem não percebe o que aconteceu.
sexta-feira, 29 de maio de 2015
quinta-feira, 28 de maio de 2015
Fica uma história por contar mesmo quando não se conta uma história
84 anos, status pós-AVC, parcialmente dependente.
É de manhã, e a senhora ainda não tinha dito uma única palavra no internamento. Levam-na numa cadeira de rodas à casa de banho, tapada com um lençol, para a ajudarem a fazer a sua higiene.
"Sabe, o senhor é o primeiro homem em toda a minha vida que me vê nua."
É de manhã, e a senhora ainda não tinha dito uma única palavra no internamento. Levam-na numa cadeira de rodas à casa de banho, tapada com um lençol, para a ajudarem a fazer a sua higiene.
"Sabe, o senhor é o primeiro homem em toda a minha vida que me vê nua."
quarta-feira, 27 de maio de 2015
Noite 19
Esta noite, pela segunda vez consecutiva, não tenho forças nem vontade de escrever alguma coisa em particular.
Por causa da mudança de paradigma do blog, pela primeira vez reli todas as entradas publicadas.
25.03.2012
"Ele sabia que no final não teria existido
.
E acrescentou um ponto final, para que pelo menos se tratasse de uma inexistência gramaticalmente correcta."
29.03.2012
"Ele fez tudo como se o Sol lhe tivesse dito que não voltaria a nascer,
ou como se fosse a última vez na vida que estaria apaixonado.
O dia seguinte amanheceu chuvoso e sozinho. Cego, ponderou a roupa que iria vestir. Depois de espreitar à janela, desceu o prédio e atravessou a estrada fora de sítio."
30.03.2012
"Ele não podia dizer que não voltaria a acontecer,
E depois disse que não voltaria a acontecer.
Pediu desculpa e, com sono, foi dormir os sonhos que ainda havia por sonhar."
06.04.2012
"We're gonna wind up like us."
22.05.2012
"Quando se gosta, gosta-se. E há uma falta de ar nas pernas e enche-se o peito de cansaço e o mundo é do avesso.
Quando se gosta, gosta-se. E corre-lhe nas veias esperança igual.
É um truque de magia conhecido de todos. É uma ilusão de óptica. É uma sensação qualquer ludibriada.
É um embuste mascarado de desespero."
Espero que em 2018 continue a ter a capacidade de me surpreender a mim próprio pela positiva.
terça-feira, 26 de maio de 2015
Noite 18
A depressão é uma punheta de egoísmo e irresponsabilidade social. Injecto-me de pensamentos consternados em espirais obsessivas cada vez mais profundas. Não vejo nada, não oiço ninguém, não quero saber. Mas fico bem, num equilíbrio frágil e tenso algures lá ao fundo. Soltam-se dezenas de ideias e comentários a fazer que não chegam a existir. São lábios trincados em movimentos sensuais que ninguém beija. Hoje senti-me bem e não me ocorreu nada de jeito. Pior assim.
segunda-feira, 25 de maio de 2015
Noite 17
Voltam as malas de fim de semana com roupa engomada e tupperwares de saladas mistas. Voltam os lençóis lavados. Voltam os livros de cabeceira em que nada se avançou. Voltam os projectos de curto prazo que desapareceram na segunda-feira. Fundem-se pequenas saudades e convivem-se aventuras novas nos cafés do costume.
Há uma perfeição frágil em ser estudante universitário num domingo à noite. Exibe-se um asseio lacónico, repetido em intervalos vagamente fixos. No domingo há noite, paira no ar a disciplina mental, sobreposta à organização física que se perderá pela semana fora. Não nos comprometamos demasiado, que as semanas são todas iguais.
Há uma perfeição frágil em ser estudante universitário num domingo à noite. Exibe-se um asseio lacónico, repetido em intervalos vagamente fixos. No domingo há noite, paira no ar a disciplina mental, sobreposta à organização física que se perderá pela semana fora. Não nos comprometamos demasiado, que as semanas são todas iguais.
Omelette du fromage
Imagine-se um Mundo onde não podemos dizer o que sentimos de maneira adequada, simplesmente por isso, porque não sabemos expressar-nos convenientemente. É o que me acontece todos os dias quando quero escrever sobre uma ideia que tive.
Merci beaucoup o caralho!
domingo, 24 de maio de 2015
Noite 16
Ele tem uns businesses e ela uma montra de ideias soltas. Eu observo a situação com um misto de desresponsabilização e incredulidade.
A perversão emocional em que me envolvi já tem anos de evolução suficientes. Em parte foi culpa própria, outra parte da conjuntura, mas está tudo mais do que pago. Já só tenho trocos de moedas pequenas. Eu fumo, fumo muito, cada vez mais. Fumo projectos inacabados que se transformam em sonhos persecutórios que não quero ter. Mas acho que já chega, estou embriagado de não querer pensar mais nisto.
Não era preciso ser astrólogo, nem particularmente sobredotado, para prever o que iria acontecer.
Não há nenhuma rapariga que tenha estado apaixonada por mim a quem eu não seja indiferente, com um toque pessoal de desprezo pelo meio. Há, evidentemente, reflexões profundas a fazer. Preciso usar mais o passado para imaginar paixões futuras; e não para alimentar um circo de tragédias românticas no qual sou o único palhaço.
Esta noite vim tarde, as luzes da rua desligaram-se agora e eu apaixonei-me sozinho pela última vez.
Not my circus not my monkeys.
A perversão emocional em que me envolvi já tem anos de evolução suficientes. Em parte foi culpa própria, outra parte da conjuntura, mas está tudo mais do que pago. Já só tenho trocos de moedas pequenas. Eu fumo, fumo muito, cada vez mais. Fumo projectos inacabados que se transformam em sonhos persecutórios que não quero ter. Mas acho que já chega, estou embriagado de não querer pensar mais nisto.
Não era preciso ser astrólogo, nem particularmente sobredotado, para prever o que iria acontecer.
Não há nenhuma rapariga que tenha estado apaixonada por mim a quem eu não seja indiferente, com um toque pessoal de desprezo pelo meio. Há, evidentemente, reflexões profundas a fazer. Preciso usar mais o passado para imaginar paixões futuras; e não para alimentar um circo de tragédias românticas no qual sou o único palhaço.
Esta noite vim tarde, as luzes da rua desligaram-se agora e eu apaixonei-me sozinho pela última vez.
Not my circus not my monkeys.
Plantas maradas e areias movediças
Se pudesse perder um medo seria o de não viver para sempre.
Se pudesse ganhar um medo seria o de viver para sempre.
Se pudesse voltar atrás, tinha crescido mais rápido, para te conhecer mais cedo.
Se pudesse andar para a frente morria antes de ti.
Se pudesse mudar alguma coisa seriam as regras do Mundo.
Se pudesse criar algo seria uma caixa onde colocar o meu vazio.
Se pudesse levar um momento comigo para as nuvens, era um que passei à janela do teu quarto.
Se pudesse fazer alguma coisa parava o tempo quando estivesse a olhar para ti, como no momento que levava comigo para as nuvens.
Se pudesse apagar sentimentos eram memórias de não ter estado contigo.
Se pudesse acrescentar histórias eram as do que teria acontecido se não tivesse acontecido o que poderia apagar.
Se pudesse conhecer-te de novo outra vez, lia mais livros para te escrever cartas mais bonitas.
Se pudesse dizer-te alguma coisa eram desculpas infinitas do que não te disse quando te podia ter dito algo.
Se pudesse tirar-te uma coisa, era a mesma impulsão que te fez gostar tanto de mim.
Se pudesse dar-te algo dava-te o que posso ser.
Se pudesse fazer-te acreditar nalguma coisa, seria em Deus.
Se pudesse sentar-me agora contigo, esperava pela noite e levava-te para a praia.
Se pudesse ter um super poder seria o de ser especial.
Se pudesse ter dois super poderes seriam o de te mostrar que quero ser especial como tu.
Se pudesse ficava várias noites a lembrar-me de momentos que falharam e tentar perceber porque falharam.
Se pudesse ficava vários dias a lembrar-me de momentos mágicos e a tentar perceber porque permitiram a existência de falhas.
Se pudesse confiar mais em alguém, seria em mim.
Se pudesse dar-te certezas absolutas dava-te a certeza absoluta que tenho de que não vejo mais ninguém para além de ti.
Se pudesse abraçar-te era de frente, porque prefiro assim.
Se pudesse ganhar um medo seria o de viver para sempre.
Se pudesse voltar atrás, tinha crescido mais rápido, para te conhecer mais cedo.
Se pudesse andar para a frente morria antes de ti.
Se pudesse mudar alguma coisa seriam as regras do Mundo.
Se pudesse criar algo seria uma caixa onde colocar o meu vazio.
Se pudesse levar um momento comigo para as nuvens, era um que passei à janela do teu quarto.
Se pudesse fazer alguma coisa parava o tempo quando estivesse a olhar para ti, como no momento que levava comigo para as nuvens.
Se pudesse apagar sentimentos eram memórias de não ter estado contigo.
Se pudesse acrescentar histórias eram as do que teria acontecido se não tivesse acontecido o que poderia apagar.
Se pudesse conhecer-te de novo outra vez, lia mais livros para te escrever cartas mais bonitas.
Se pudesse dizer-te alguma coisa eram desculpas infinitas do que não te disse quando te podia ter dito algo.
Se pudesse tirar-te uma coisa, era a mesma impulsão que te fez gostar tanto de mim.
Se pudesse dar-te algo dava-te o que posso ser.
Se pudesse fazer-te acreditar nalguma coisa, seria em Deus.
Se pudesse sentar-me agora contigo, esperava pela noite e levava-te para a praia.
Se pudesse ter um super poder seria o de ser especial.
Se pudesse ter dois super poderes seriam o de te mostrar que quero ser especial como tu.
Se pudesse ficava várias noites a lembrar-me de momentos que falharam e tentar perceber porque falharam.
Se pudesse ficava vários dias a lembrar-me de momentos mágicos e a tentar perceber porque permitiram a existência de falhas.
Se pudesse confiar mais em alguém, seria em mim.
Se pudesse dar-te certezas absolutas dava-te a certeza absoluta que tenho de que não vejo mais ninguém para além de ti.
Se pudesse abraçar-te era de frente, porque prefiro assim.
sábado, 23 de maio de 2015
Noite 15
A falta de luz diz-me que "ela" foi de fim-de-semana enquanto eu fiquei preso a um trabalho que não me apetece.
A rua está invulgarmente animada hoje e eu vim de calções e chinelos, com uma t-shirt da queima das fitas 2010. Em 2010 nem eu nunca cá tinha passado, ou tendo, não prestei atenção. Essa é a magia actual desta rua, a representação substancial de um futuro incógnito. O meu prolongamento cronológico e o envolvimento implícito a uma circunstância que ainda não conheço.
O desenho que mais me marcou até hoje tinha uma frase cuja tradução despretensiosa é: 'estou apaixonado por alguém que ainda não conheço.'. Na verdade, foi esse desenho e a interpretação a si associada os gatilhos que despoletaram tudo o que me aconteceu desde então.
Hoje li um texto do Miguel Esteves Cardoso que falava das rotinas monótonas enquanto antítese da morte. Eu acho que a antítese da morte é a esperança, viva ou vã, naquilo que ainda está por acontecer. É a ideia de que algures, sem saber onde, está alguém com quem partilhamos intimidade e segredos de amanhã. O destino é uma banalidade que não nos diz respeito, como era esta rua em 2010.
E eu aqui, de pernas flectidas em cima do banco, com um telemóvel entre os joelhos, longe de atributos e peripécias futuras, dono de algo que o será então.
Lembro-me já dele no futuro com a saudade que hei-de ter então.
Love someone i don't know yet.
A rua está invulgarmente animada hoje e eu vim de calções e chinelos, com uma t-shirt da queima das fitas 2010. Em 2010 nem eu nunca cá tinha passado, ou tendo, não prestei atenção. Essa é a magia actual desta rua, a representação substancial de um futuro incógnito. O meu prolongamento cronológico e o envolvimento implícito a uma circunstância que ainda não conheço.
O desenho que mais me marcou até hoje tinha uma frase cuja tradução despretensiosa é: 'estou apaixonado por alguém que ainda não conheço.'. Na verdade, foi esse desenho e a interpretação a si associada os gatilhos que despoletaram tudo o que me aconteceu desde então.
Hoje li um texto do Miguel Esteves Cardoso que falava das rotinas monótonas enquanto antítese da morte. Eu acho que a antítese da morte é a esperança, viva ou vã, naquilo que ainda está por acontecer. É a ideia de que algures, sem saber onde, está alguém com quem partilhamos intimidade e segredos de amanhã. O destino é uma banalidade que não nos diz respeito, como era esta rua em 2010.
E eu aqui, de pernas flectidas em cima do banco, com um telemóvel entre os joelhos, longe de atributos e peripécias futuras, dono de algo que o será então.
Lembro-me já dele no futuro com a saudade que hei-de ter então.
Love someone i don't know yet.
sexta-feira, 22 de maio de 2015
Noite 14
Ela é magra e de média altura para o género e idade. Cada vez mais magra, por força da conjuntura. Haverá quem lhe ache o sorriso perfeito; isso depende sempre da opinião. Tem olhos verdes debaixo de uns grandes óculos de massa que ainda não consegui perceber se são graduados. Terminou há um mês um namoro de sete anos e o respectivo rapaz já está com outra pessoa. Ela só mudou de penteado.
Está sempre a chorar. Chora por tudo, chora por nada, chora porque sim todos os dias a toda a hora. A primeira vez que a vi chorar compulsivamente levei-a a um sítio mais sossegado para que não o fizesse à frente de quem não compreende. Desde então todos os dias me pede opinião sobre tudo e decora as respostas como uma beata decalca a Bíblia.
Faz perguntas particulares a que não quero responder. Outras não sei. Para as perguntas gerais invento respostas vagas. Para as específicas invento outra coisa qualquer. Interrompo-lhe as histórias incómodas porque deduzo o final sozinho. Tenho coisas concretas a dizer-lhe sobre tudo aquilo, mas não o faço. Não me precipito em termos de comparação nem confundo facilmente a estrada da Beira com a beira da estrada.
Hoje passei e encontrei-a a chorar porque a vizinha de um doente qualquer tinha um problema qualquer. Ela contou-me, mas não percebi bem a história. Não percebi se o problema era dela, do doente, da vizinha, ou meu. Foi uma confusão e perdi-lhe os sentidos a meio.
A tristeza profunda decompõe-nos a sensibilidade. A sua empatia circunstancialmente exagerada adultera a minha. Gosto disso!
She's broken and overpowered.
Está sempre a chorar. Chora por tudo, chora por nada, chora porque sim todos os dias a toda a hora. A primeira vez que a vi chorar compulsivamente levei-a a um sítio mais sossegado para que não o fizesse à frente de quem não compreende. Desde então todos os dias me pede opinião sobre tudo e decora as respostas como uma beata decalca a Bíblia.
Faz perguntas particulares a que não quero responder. Outras não sei. Para as perguntas gerais invento respostas vagas. Para as específicas invento outra coisa qualquer. Interrompo-lhe as histórias incómodas porque deduzo o final sozinho. Tenho coisas concretas a dizer-lhe sobre tudo aquilo, mas não o faço. Não me precipito em termos de comparação nem confundo facilmente a estrada da Beira com a beira da estrada.
Hoje passei e encontrei-a a chorar porque a vizinha de um doente qualquer tinha um problema qualquer. Ela contou-me, mas não percebi bem a história. Não percebi se o problema era dela, do doente, da vizinha, ou meu. Foi uma confusão e perdi-lhe os sentidos a meio.
A tristeza profunda decompõe-nos a sensibilidade. A sua empatia circunstancialmente exagerada adultera a minha. Gosto disso!
She's broken and overpowered.
quinta-feira, 21 de maio de 2015
BS VI
"Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa."
quarta-feira, 20 de maio de 2015
FP II
"Mais que tudo choro já não te amar,
Sim, choro a tragédia de não ser o mesmo na alma,
De te ser infiel sem infidelidade,
De me ter esquecido de ti sem propriamente te aborrecer.
Não é o tempo ido em que te amei que choro.
Choro não te amar já por isso ser natural.
Choro ter-te esquecido, choro não me poder lembrar
Com saudade do tempo em que te amei.
Isso é que choro, sim, com as verdadeiras lágrimas
Que contém em si os piores mistérios —
A morte essencial das coisas,
O acabar das almas, mais grave que o dos corpos,
O abismo onde a única esperança é poder haver Deus
E um outro sentido desconhecido a tudo que se teve e se foi
Um outro lado, nem côncavo nem convexo à curva da vida."
Noite 12
Gosto dos velhotes, gosto de crianças, gosto mais de gatos mas também gosto de cães. Gosto de roedores. Gosto do que faço. Gosto de conversar com as pessoas desde que não me aborreçam com trivialidades sem interesse. Prefiro estar sozinho mas às vezes encontro energia para partilhar um espaço. Aprecio o papel inútil que desempenho na sociedade. Não me dou bem com toda a gente mas não crio problemas a ninguém. Dou-me bem com isso.
Tenho uma licenciatura de pouco valor relativo, sou subliterado, leio pouco. Perdi a paciência para a maioria dos filmes de merda e séries mal escritas a que tenho acesso. A minha cultura geral é bastante limitada mas evito dar opiniões precárias sobre temas que não domino, que são quase todos. Aprendi a falar pouco, habitualmente apenas o indispensável. Dou-me bem com isso.
Não se pode confiar em mim porque perco amiúde o controlo sobre o humor. Não tenho nada de especial a oferecer a ninguém. Dou-me bem com isso.
Não gosto de adrenalina. A única excitação que tolero é quando me ocorre uma ideia inteligente de algo para escrever, sobre o que muito raramente consigo efectivamente fazer. Dou-me bem com isso.
É tudo tranquilo afinal, sobretudo da parte da tarde. O mundo não acaba amanhã. Se acabar não há problema que não tenho nada combinado. Só se vive uma vez mas poucas vezes se morre mais que isso.
Esta noite houve uma celebração de vulgaridades no Clube das Pilas Medianas. Bebi com moderação e saí dentro dos limites de velocidade.
Tenho uma licenciatura de pouco valor relativo, sou subliterado, leio pouco. Perdi a paciência para a maioria dos filmes de merda e séries mal escritas a que tenho acesso. A minha cultura geral é bastante limitada mas evito dar opiniões precárias sobre temas que não domino, que são quase todos. Aprendi a falar pouco, habitualmente apenas o indispensável. Dou-me bem com isso.
Não se pode confiar em mim porque perco amiúde o controlo sobre o humor. Não tenho nada de especial a oferecer a ninguém. Dou-me bem com isso.
Não gosto de adrenalina. A única excitação que tolero é quando me ocorre uma ideia inteligente de algo para escrever, sobre o que muito raramente consigo efectivamente fazer. Dou-me bem com isso.
É tudo tranquilo afinal, sobretudo da parte da tarde. O mundo não acaba amanhã. Se acabar não há problema que não tenho nada combinado. Só se vive uma vez mas poucas vezes se morre mais que isso.
Esta noite houve uma celebração de vulgaridades no Clube das Pilas Medianas. Bebi com moderação e saí dentro dos limites de velocidade.
Padrão
Podia dizer que nunca me senti assim; volta e meia estaria a ser um tanto ou quanto exagerado.
"Sempre foi característica das minhas síndromes de privação chegar ao dia 12 e ter um rasgo de algo parecido com criatividade, uma explosão mental de pensamentos e uma implosão dolorosa de sentimentos e emoções."
"Sempre foi característica das minhas síndromes de privação chegar ao dia 12 e ter um rasgo de algo parecido com criatividade, uma explosão mental de pensamentos e uma implosão dolorosa de sentimentos e emoções."
14.12.2011
Dia 12: Quando me apaixono por alguém, comparo sempre o mundo de
então, com o mundo como eu o percebia antes de ter conhecido essa pessoa, ou
antes de estar apaixonado por ela. A verdade, nua e crua, é que é sempre
exactamente igual, sem tirar nem pôr. O mesmo vazio, a mesma sensação de
incompletude, o mesmo arrastar quotidiano lânguido e esforçado, as mesmas
incapacidades, a mesma percepção limitada do que é não ser. Pena que só me
aperceba disso à noite, quando estou cansado.
14.10.2008
Dia 12: Vivo exactamente da mesma maneira que sempre tenho vivido. Não mudei nada.
Vivo em buracos de mundo, entre fantasias inócuas e infantis. Entre espaços de qualquer coisa, incoerentes, ilógicos; vivo nos intervalos impossíveis do que não quero ser. Vivo entre devaneios interrompidos do que os outros sentem.
Sou um intérprete de momentos, um imitador de ideologias, uma insignificância com identidade. Vivo porque é assim que sou: um “isto” sem asa para se agarrar.
Vivo de não viver de facto. Como naquele espaço morto das histórias, em que viramos páginas. Como quando levantamos a caneta e pomos os pontos nos ii.
Dia 12: Observo o meu vizinho, por entre a transparência triste da janela do meu quarto. Leva pela mão um bebé a aprender a andar. Não sei se ria de ternura se chore de pena da criança. Isto que agora começa a acontecer-lhe não tardará a percebê-lo incompleto, limitado. Pergunto-me, com a inconsciência irritante de quem não compreende, se não é maldade dos pais todos do mundo trazerem alguém ao Universo. Que maldade tão doce! Que malvadez compensadora! Que desumanidade indulgente…
12.10.2006:
Dia 12: Sinto-me
um poeta sem óculos, sem caneta e sem folhas e sem palavras.
Porque um poeta pode ser poeta sem rimas, se se sentir poeta, uns óculos lhe
bastem…
terça-feira, 19 de maio de 2015
BS V
"De tal modo anteponho o sonho à vida que consigo, no trato verbal (outro não tenho), continuar sonhando, e persistir, através das opiniões alheias e dos sentimentos dos outros, na linha fluida da minha individualidade amorfa.
Cada outro é um canal ou uma calha por onde a água do mar só corre a gosto deles, marcando, com as cintilações da água ao sol, o curso curvo da sua orientação mais realmente do que a secura deles o poderia fazer.
Parecendo às vezes, à minha análise rápida, parasitar os outros, na realidade o que acontece é que os obrigo a ser parasitas da minha posterior emoção. Hábito de viver as cascas das suas individualidades. Decalco as suas passadas em argila do meu espírito e assim mais do que eles, tomando-as para dentro da minha consciência, eu tenho dado os seus passos e andado nos seus caminhos."
Cada outro é um canal ou uma calha por onde a água do mar só corre a gosto deles, marcando, com as cintilações da água ao sol, o curso curvo da sua orientação mais realmente do que a secura deles o poderia fazer.
Parecendo às vezes, à minha análise rápida, parasitar os outros, na realidade o que acontece é que os obrigo a ser parasitas da minha posterior emoção. Hábito de viver as cascas das suas individualidades. Decalco as suas passadas em argila do meu espírito e assim mais do que eles, tomando-as para dentro da minha consciência, eu tenho dado os seus passos e andado nos seus caminhos."
Noite 11
Hoje estive à conversa com uma rapariga americana por uma espécie de skype. Todas têm o mesmo sotaque e o mesmo timbre de voz. Hoje li coisas que não queria ler, mas que me deixaram uma doçura extravagante na alma. Tudo acontece da mesma forma e pelos mesmo processos.
O que fica do que foi é o que fazemos dele. Definições de amor há muitas, alguns não têm nenhuma, outros inventam-nas erradas, outros inventam as suas. Eu tenho a minha, que não é nada de especial, nem particularmente erudita.
O que fica do que foi é isso em si mesmo... os lugares ocupados, os desocupados e os que quase foram; as conversas imaginadas partilhadas, as espontâneas e improvisadas e as que ficaram entre nuvens só para leitores de histórias românticas; as memórias imediatas, as profundas e as omitidas. O amor tem o auge depois do fim e não no pico da paixão. O romance é uma realização da consciência e não das circunstâncias. Perfeição é ficarmos felizes por não ter cabido tudo depois de arrumarmos a mala. Perfeição é sorrirmos sozinhos, todos os dias à mesma hora, das palavras e dos gestos e das imperfeições.
O que fica do que foi são arrependimentos atrasados que temos de saber saborear.
O que fica do que foi é igual a cem metros ou a cem centenas de quilómetros. É igual no Penedo da Saudade, na rua vazia mal iluminada ou deitado na cama sob a luz ténue dum candeeiro sozinho.
O que fica do que foi é o que define a narrativa após a contracapa. Depois disso, 'qualquer semelhança é pura coincidência'.
Love is a dress that you made long to hide your knees.
O que fica do que foi é o que fazemos dele. Definições de amor há muitas, alguns não têm nenhuma, outros inventam-nas erradas, outros inventam as suas. Eu tenho a minha, que não é nada de especial, nem particularmente erudita.
O que fica do que foi é isso em si mesmo... os lugares ocupados, os desocupados e os que quase foram; as conversas imaginadas partilhadas, as espontâneas e improvisadas e as que ficaram entre nuvens só para leitores de histórias românticas; as memórias imediatas, as profundas e as omitidas. O amor tem o auge depois do fim e não no pico da paixão. O romance é uma realização da consciência e não das circunstâncias. Perfeição é ficarmos felizes por não ter cabido tudo depois de arrumarmos a mala. Perfeição é sorrirmos sozinhos, todos os dias à mesma hora, das palavras e dos gestos e das imperfeições.
O que fica do que foi são arrependimentos atrasados que temos de saber saborear.
O que fica do que foi é igual a cem metros ou a cem centenas de quilómetros. É igual no Penedo da Saudade, na rua vazia mal iluminada ou deitado na cama sob a luz ténue dum candeeiro sozinho.
O que fica do que foi é o que define a narrativa após a contracapa. Depois disso, 'qualquer semelhança é pura coincidência'.
Love is a dress that you made long to hide your knees.
segunda-feira, 18 de maio de 2015
Noite 10
Mais que um vazio de ideias, estou sob um vazio de vontades. Não me apetece fazer nada, nem dizer nada, nem pensar nada. Só quero estar aqui sentado, tranquilo, emancipado da demência colectiva do mundo. Quero que seja esta noite para toda a eternidade. Tapado com um cobertor confortável, dormia aqui até amanhã por esta hora, quando prolongaria então a hibernação pelo dia seguinte, e assim sucessivamente...
Há sítios melhores para ficar. Certamente está-se melhor na copa das árvores. Mas não podendo voar, ou desaparecer, resta-me não reagir. Com um pouco de sorte, ninguém dará pela minha falta. Com um pouco de azar, isso não fará a mínima diferença.
Deep inside every soul, there is a sadness on the verge of climbing through.
Há sítios melhores para ficar. Certamente está-se melhor na copa das árvores. Mas não podendo voar, ou desaparecer, resta-me não reagir. Com um pouco de sorte, ninguém dará pela minha falta. Com um pouco de azar, isso não fará a mínima diferença.
Deep inside every soul, there is a sadness on the verge of climbing through.
sábado, 16 de maio de 2015
Noite 9
Apoderou-se do meu corpo o demónio da ignorância. O demónio da apatia, que me enfarta, qual prisão de ventre emocional, sob a forma de estupidez.
A minha apatia é uma espécie de autismo dos pobres de espírito. Não enxergo a ideia social de felicidade, não porque não queira, mas porque não consigo. Chama-se oligofrenia da vontade dos outros.
Falhei em compreender o que imaginaram para mim. Não dei valor à cadência gentil com que o mundo girava. Agora, os sonhos alheios são bolachas roídas. Mergulho-os nesta tigela de leite coalhado que é o meu íntimo. Aqui, todos um dias há um banquete de luxúria castrada. Todos os dias!, na companhia imaginária de quem me oferece nostalgia.
A minha apatia é uma espécie de autismo dos pobres de espírito. Não enxergo a ideia social de felicidade, não porque não queira, mas porque não consigo. Chama-se oligofrenia da vontade dos outros.
Falhei em compreender o que imaginaram para mim. Não dei valor à cadência gentil com que o mundo girava. Agora, os sonhos alheios são bolachas roídas. Mergulho-os nesta tigela de leite coalhado que é o meu íntimo. Aqui, todos um dias há um banquete de luxúria castrada. Todos os dias!, na companhia imaginária de quem me oferece nostalgia.
sexta-feira, 15 de maio de 2015
Noite 8
Se tivesse o dom de me expressar bem, escreveria sobre as mãos da mulher. Não sobre a sua estrutura e aparência, mas sobre a posição feminina que mantêm, sobre a subtileza dos seus movimentos involuntários e a finura dos seus gestos. Como não tenho esse dom, fico-me pelo desejo de o ter.
A esta hora, tudo em mim são desejos vãos, ocupações mentais sem solução. O tempo não volta para trás. Se voltasse, de certeza que seria um dia ou dois, nunca um par de anos de obsolescência. A criação tem regras e concessões, não se pode abusar. Esta noite não choro porque o que não tem solução, solucionado está.
A esta hora, tudo em mim são desejos vãos, ocupações mentais sem solução. O tempo não volta para trás. Se voltasse, de certeza que seria um dia ou dois, nunca um par de anos de obsolescência. A criação tem regras e concessões, não se pode abusar. Esta noite não choro porque o que não tem solução, solucionado está.
quinta-feira, 14 de maio de 2015
Noite 7
Esta noite cheguei tarde. Não que haja horas definidas para me sentar e imaginar novamente o impossível. O impossível não se consigna ao cronológico, nem se espera que aconteça, imagina-se simplesmente. Quanto muito espera-se dele que não degenere. A propósito de degenerar, veio me à memória uma fragância intacta. O coração apertou-se de saudades. Foi uma pequena vitória.
As mudanças de humor têm-me entristecido a razão. Começam por volta da meia noite, é aí que me esqueço de mim por um minuto ou dois de cada vez. Mas eu sei que ela me observa, pelo menos a ideia vaga de si, nua, nos braços de alguém, ou sob as luzes escuras de uma rua que já não é.
Tenho tido visitas no blog a horas fora do comum, de pessoas fora do habitual. Quem quer que se entretenha com leituras de rabiscos diários, tem de certeza conceitos pervertidos do que vale a pena.
Foda-se que susto do caralho!! Passaram dois gajos por trás de mim sem que reparasse na sua chegada. Bêbados de merda, atrasadões mentais que me fizeram saltar do banco. Neste lugar, até os sustos são elegantes, até sobre isso há qualquer coisa romântica a acrescentar. Puta que pariu, estes cabrões iam-me provocando um enfarte!
quarta-feira, 13 de maio de 2015
Noite 6
Todas as noites, algures entre a uma e as três da manhã, venho ao Penedo da Saudade sentar-me neste banco iluminado por um candeeiro que não deveria existir. Agarro no telemóvel e escrevo meia dúzia de frases banais, num português assintático, miseravelmente articulado.
Não faz sentido! É como ser sócio honorário de um Clube de Pilas Medianas. É um conceito sem fundamento, um arbítrio disconexo, em apelo à necessidade onde ela nunca morou.
Mas de certa maneira, bem vistas as coisas, é sobre pilas medianas que se exageram os caprichos do mundo.
Good evening Sir, welcome to the Average Dick Club! Enjoy your stay!
Não faz sentido! É como ser sócio honorário de um Clube de Pilas Medianas. É um conceito sem fundamento, um arbítrio disconexo, em apelo à necessidade onde ela nunca morou.
Mas de certa maneira, bem vistas as coisas, é sobre pilas medianas que se exageram os caprichos do mundo.
Good evening Sir, welcome to the Average Dick Club! Enjoy your stay!
terça-feira, 12 de maio de 2015
Noite 5
Não estou apaixonado por uma pessoa mas por um conceito que se lhe associa. Há pouco de substantivo nisso, eu sei, mas também o há na convenção atribuída aos sinais de um semáforo. É assim porque é assim. Aconteceu porque assim se determinou que aconteceria. É o que é, é o que será. Ninguém compreende bem porquê, ninguém se revolta do contrário. Ainda bem.
Encontrei o dono do cão do colar protector. Ele pensa que o cão é dele, eu acho que o cão me pertence. Ficamos assim... O cão é dele, o momento é meu. Para a inércia sentimental que carrego hoje, assim também não está mal.
I live in a city sorrow built
It's in my honey, it's in my milk
Encontrei o dono do cão do colar protector. Ele pensa que o cão é dele, eu acho que o cão me pertence. Ficamos assim... O cão é dele, o momento é meu. Para a inércia sentimental que carrego hoje, assim também não está mal.
I live in a city sorrow built
It's in my honey, it's in my milk
segunda-feira, 11 de maio de 2015
Noite 4
Sexta-feira antes de entrar, passei no McDonalds e trouxe comida para a porta do hospital.
Tenho saudades das poucas vezes que lá fomos e daquelas em que podíamos ter ido mas acabámos por não o fazer. Só que o aspecto dos wraps já não é o de antigamente; e o sabor carece daquela pitada de je ne sais quoi que a excitação da novidade lhe atribuiu.
Nada do que me acontece é especial como dantes. Antigamente e nos tempos anteriores a esse, as noites pertenciam a quem se apaixonava. As ocasiões desenrolavam sozinhas e as histórias tinham dono. Nós acontecemos ao mesmo tempo, num embrulho de massa fina com tomate, cebola e molho viciante. O problema foi termos achado que antigamente nada era como dantes; que o paradigma bom acabava sempre que devia começar.
Ninja Kore - Wake the fuck up
sexta-feira, 8 de maio de 2015
Noite 3
Apenas eu, eu e mais eu, apodrecendo lentamente neste sono lânguido que me tolda as vontades e os desejos. Hoje pesam-me inteiros os sonhos de outrora que se esqueceram algures. Hoje quero chorar e hoje nem isso consigo. Tudo que faço são estratégias de coping. Agarro-me ao que já conheço, e ao pouco que tenho no interior.
Há um homem nu invisível dentro de mim, com uma pila gigante a bater-me na nuca. E decaem-me suavemente pentelhos na garganta, num amontoado de novelos por desenrolar, escondendo monstros que nunca dançaram.
Depression has landed in Tallahassee.
Há um homem nu invisível dentro de mim, com uma pila gigante a bater-me na nuca. E decaem-me suavemente pentelhos na garganta, num amontoado de novelos por desenrolar, escondendo monstros que nunca dançaram.
Depression has landed in Tallahassee.
quinta-feira, 7 de maio de 2015
Noite 2
Penedo da Saudade, na companhia de um cão preto, de tamanho pequeno-médio que aqui anda a abanar o rabito e cheiricar tudo, com uma protecção cefálica, sendo daí dedutível que terá um dono. As luzes da cidade nunca mudam, nem precisam. O que mudar quando se cumpre o propósito para que se foi criado, ou mudar para quê?
O cão não sai e eu acho prudente fazer um exercício antes que ele desapareça algures entre os odores que o guiam, algures por entre as mijadelas que o fazem sonhar.
Lembrar o passado, o dia da criação deste blog, há três anos atrás, também na companhia de um cão estranho, fumando cigarros já há muito fumados. Sei lá, era tudo tão diferente. Tudo mascarado de revelação. Tudo misturado com ideias de grandeza e patetices típicas da ilusão de felicidade. Como se as coisas acontecessem porque fosse eu o escolhido de uma contra-prova qualquer, uma teoria obsoleta, num trono semi-ocupado.
Hmm, nope. Nope, nope, nope, nope, nope (o cão levantou as orelhas, assustou-se comigo a dizer nope e desapareceu. Ainda bem, onde há cão há dono e a mim já me chega o casal de trajados a beijar-se lá em cima... e os outros três do outro lado, a beber cervejas e a fumar charros).
E daqui a cinco anos, o que é que eu quero fazer? Ser especialista, fazer VMER, estar loucamente apaixonado, cheio de ideias fugazes e processos de intenção irracionais. Hmm, não. Não, não, não, não, não.
Muito antes pelo contrário... Hoje, aqui sozinho, acho que quero só tomar conta de mim. Meter-me um capacete na cabeça, mas dos modernos, para que não possa fuçar os charros dos outros, ou coçar as certezas absolutas de quem tratei muito abaixo do que merecíamos.
O cão não sai e eu acho prudente fazer um exercício antes que ele desapareça algures entre os odores que o guiam, algures por entre as mijadelas que o fazem sonhar.
Lembrar o passado, o dia da criação deste blog, há três anos atrás, também na companhia de um cão estranho, fumando cigarros já há muito fumados. Sei lá, era tudo tão diferente. Tudo mascarado de revelação. Tudo misturado com ideias de grandeza e patetices típicas da ilusão de felicidade. Como se as coisas acontecessem porque fosse eu o escolhido de uma contra-prova qualquer, uma teoria obsoleta, num trono semi-ocupado.
Hmm, nope. Nope, nope, nope, nope, nope (o cão levantou as orelhas, assustou-se comigo a dizer nope e desapareceu. Ainda bem, onde há cão há dono e a mim já me chega o casal de trajados a beijar-se lá em cima... e os outros três do outro lado, a beber cervejas e a fumar charros).
E daqui a cinco anos, o que é que eu quero fazer? Ser especialista, fazer VMER, estar loucamente apaixonado, cheio de ideias fugazes e processos de intenção irracionais. Hmm, não. Não, não, não, não, não.
Muito antes pelo contrário... Hoje, aqui sozinho, acho que quero só tomar conta de mim. Meter-me um capacete na cabeça, mas dos modernos, para que não possa fuçar os charros dos outros, ou coçar as certezas absolutas de quem tratei muito abaixo do que merecíamos.
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Noite 1
Acabei de me encher de coragem e desci o Penedo da Saudade, escada por escada, à procura daquela velha mesa de pedra onde tantas vezes me deitei apaixonado. Desci devagarinho, na escuridão, porque se eu caísse e fodesse o joelho aí é que era o cabo dos trabalhos!
Já o tinha descido há pouco mais de um ano, durante o dia, e verificado que é sempre o vazio que nos fere mais a saudade. Mas há um ditado, que inventei agora mesmo, que diz que nunca se deve procurar nada durante o dia. E há outro, que inventei há uns dias, em que me tento convencer a mim mesmo que se repetir muitas vezes o mesmo gesto, o resultado final será completamente diferente.
A mesa não estava lá, nem a mesa nem a mística, nem o frio estarrecedor, nem a companhia, nem a escuridão estava escura igual. Esta noite vi melhor o que lá falta. E umas velas arrepiantes espalhadas pelo chão, acesas, deixaram perceber que há um espaço na história da minha vida partilhado por uns outros loucos quaisquer, pouco tempo antes deles terem acontecido.
A vida dá muitas voltas, demasiadas para tão escassos e tão previsíveis endpoints. Quem diz endpoint diz foda-se! Foda-se até é mais bonito, diga-se de passagem.
Mas desci, e senti o peso de tudo o que fiz de errado nos ombros e na cabeça. Sentei-me nos bancos que não deveriam lá estar, e recordei o que fui nesta cidade antes de ali ter estado a primeira vez. Recordei nos bancos, onde não poderia estar sentado se as coisas não fossem como são, os sonhos que me têm atormentado e dificultado a iniciativa de auto-penitência de que tomei posse recentemente.
De qualquer das formas, sem psicólogos, psiquiatras e finalmente sem os comprimidos de merda, será sentado naquele banco, nesta hora sossegada de patetas e fingidores, que darei sozinho o seguimento necessário a esta auto-penitência que me fará alguém melhor. Todas as noites que não trabalhe, até me apaixonar por outra pessoa, mesmo que seja eu próprio.
Slipped, The National
Já o tinha descido há pouco mais de um ano, durante o dia, e verificado que é sempre o vazio que nos fere mais a saudade. Mas há um ditado, que inventei agora mesmo, que diz que nunca se deve procurar nada durante o dia. E há outro, que inventei há uns dias, em que me tento convencer a mim mesmo que se repetir muitas vezes o mesmo gesto, o resultado final será completamente diferente.
A mesa não estava lá, nem a mesa nem a mística, nem o frio estarrecedor, nem a companhia, nem a escuridão estava escura igual. Esta noite vi melhor o que lá falta. E umas velas arrepiantes espalhadas pelo chão, acesas, deixaram perceber que há um espaço na história da minha vida partilhado por uns outros loucos quaisquer, pouco tempo antes deles terem acontecido.
A vida dá muitas voltas, demasiadas para tão escassos e tão previsíveis endpoints. Quem diz endpoint diz foda-se! Foda-se até é mais bonito, diga-se de passagem.
Mas desci, e senti o peso de tudo o que fiz de errado nos ombros e na cabeça. Sentei-me nos bancos que não deveriam lá estar, e recordei o que fui nesta cidade antes de ali ter estado a primeira vez. Recordei nos bancos, onde não poderia estar sentado se as coisas não fossem como são, os sonhos que me têm atormentado e dificultado a iniciativa de auto-penitência de que tomei posse recentemente.
De qualquer das formas, sem psicólogos, psiquiatras e finalmente sem os comprimidos de merda, será sentado naquele banco, nesta hora sossegada de patetas e fingidores, que darei sozinho o seguimento necessário a esta auto-penitência que me fará alguém melhor. Todas as noites que não trabalhe, até me apaixonar por outra pessoa, mesmo que seja eu próprio.
Slipped, The National
terça-feira, 5 de maio de 2015
BS IV
"Roubaram-me o poder ser antes que o mundo fosse. Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea, e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar."
Like we'd torn it from the pages of some lipstick magazine
Borboletas no estômago, que não são bem no estômago, são mais no peito.
Um minuto de silêncio em memória do que não volta para trás, por muito que se feche os olhos e se sonhe acordado.
domingo, 3 de maio de 2015
sábado, 2 de maio de 2015
Bolsa de confissões para calibração de uma auto-estima de conforto
Sou um médico de arrumar no bolso de trás das calças. Jogo um jogo de computador compulsivamente com amigos virtuais tão idiotas como eu. Tenho medo de passear sozinho à noite, mas prefiro mil vezes estar sozinho do que acompanhado a fazer seja o que for. Sou a pessoa mais incoerente que conheço. Todas as decisões que tomo são em função do momento. Planeio tão à frente no tempo como planeava anteontem. Raramente consigo um sono reparador e ressono tanto como um gordo de 150 quilos. Às vezes vou à casa de banho e não lavo as mãos. Adoro gatos mas falta-me a paciência para criar uma relação com um. O meu humor é variável como o tempo nas mudanças de estação. Não acho graça a quase nada do que costuma fazer os outros rir, mas rio-me crónicamente às gargalhadas de coisas que nem consigo explicar. Só que para me rir, ao invés de chorar constantemente por tudo o que há de triste à minha volta, de há um ano a esta parte que dependo de escitalopram.
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Jardins imaginários com sapos de verdade
Não há frase que descreva melhor Coimbra e o estado de espírito que me encaixa em Si. São jardins imaginários, desenhados pela força da fuga de ideias, onde passeio quando passeio pelo centro de Coimbra, no fim das tardes solarengas, hipnotizado pela Sua luz particular e pelo desenfrear corropiante de tanto jovem absorto, inútil e desocupado.
Passeio pelos bancos da praça, onde me sento apaixonado e apaixonante. Desfruto dessa que é a melhor sensação do mundo: estar sozinho, sentado, profundamente apaixonado por alguém que também está profundamente apaixonado por nós, e deixar escorrer os pensamentos todos na mesma direcção.
Coimbra é, de longe, tão longe quanto vai o meu conhecimento, o sítio do mundo com a luz de fim de tarde mais romântica que existe. É verdade que a extensão do meu conhecimento se vê à transparência, mas também não é mentira que tudo isto é tão imaginário como desadequado.
Quando encontrar alguém, é naquele velho banco de tantas memórias nostálgicas que me voltarei a sentar. Empurrarei o olhar para longe de tudo o resto, que os sapos de verdade mijam-nos nos olhos e eu, para o que tenho feito com a vida, não preciso de visão.
Passeio pelos bancos da praça, onde me sento apaixonado e apaixonante. Desfruto dessa que é a melhor sensação do mundo: estar sozinho, sentado, profundamente apaixonado por alguém que também está profundamente apaixonado por nós, e deixar escorrer os pensamentos todos na mesma direcção.
Coimbra é, de longe, tão longe quanto vai o meu conhecimento, o sítio do mundo com a luz de fim de tarde mais romântica que existe. É verdade que a extensão do meu conhecimento se vê à transparência, mas também não é mentira que tudo isto é tão imaginário como desadequado.
Quando encontrar alguém, é naquele velho banco de tantas memórias nostálgicas que me voltarei a sentar. Empurrarei o olhar para longe de tudo o resto, que os sapos de verdade mijam-nos nos olhos e eu, para o que tenho feito com a vida, não preciso de visão.
Sexto sentido
Tenho um sexto sentido! Não vejo mortos, tão pouco sou um puto corrécio com cara de ranhoso, e já há muito tempo que não frequento psicólogos; mas acho que consigo prever o que vai acontecer, com maior ou menor viés cronológica. Modéstia à parte, claro. Considerando os últimos dois anos, são poucas as coisas que tenho falhado.
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