A Marta foi uma miúda da minha turma da primária até ao nono ano. Domingues, acho que é Domingues o apelido dela. A Marta lia montes de livros nos intervalos do recreio. Era muito boa a Português, ao contrário de mim, e sabia sempre a resposta quando a professora perguntava em voz alta o significado de determinada palavra.
Na terceira classe nunca fiz os trabalhos de casa, o ano inteiro. Certo dia, ao entregar as correcções do TPCs da véspera, tarefa sempre encarregue aos alunos, a Marta reparou que não me tinha entregue o meu caderno. Não mo tinha entregue porque eu não o tinha colocado na secretária da professora para ela o corrigir.
A Marta denunciou-me, faça cada um o juízo que melhor entender. A irmã Jacinta já era avançada na idade e, do que me é dado lembrar, não fez caso disso. Acho que não percebeu ou não quis perceber. Já estava velhinha.
Quando fizemos 15 anos passámos para o liceu e, como éramos do mesmo colégio, aproximámo-nos. A Marta apaixonou-se por mim. Um dia, no segundo período, convidou-me para almoçar. Fomos ao Mega Hamburguer, um restaurante do tempo em que Fast Food era uma expressão inglesa para quem não conhece a língua. Ela disse-me que gostava de mim e queria namorar, mas eu não a via da mesma forma. Para ficarmos em paz um com o outro, combinámos que aos 40 anos, se ambos estivéssemos sozinhos, voltaríamos a tentar namorar. Ela é que gostava de mim, mas eu aposto que sou o único a lembrar-me disto.
A Marta depois meteu-se na droga e fodeu com metade da escola. Era de Humanidades e talvez, à data, isso fosse critério de inclusão social. Ou então não fodeu com ninguém e sou eu que faço essa representação caricaturada da memória.
Faltam pouco mais de 10 anos e eu continuo a não gostar dela... E mesmo que gostasse só teríamos relações com preservativo. Não confio na malta de Humanidades, aquilo é cheio de vegetarianos.
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