quinta-feira, 29 de março de 2018

A Marta foi uma miúda da minha turma da primária até ao nono ano. Domingues, acho que é Domingues o apelido dela. A Marta lia montes de livros nos intervalos do recreio. Era muito boa a Português, ao contrário de mim, e sabia sempre a resposta quando a professora perguntava em voz alta o significado de determinada palavra.
Na terceira classe nunca fiz os trabalhos de casa, o ano inteiro. Certo dia, ao entregar as correcções do TPCs da véspera, tarefa sempre encarregue aos alunos, a Marta reparou que não me tinha entregue o meu caderno. Não mo tinha entregue porque eu não o tinha colocado na secretária da professora para ela o corrigir.
A Marta denunciou-me, faça cada um o juízo que melhor entender. A irmã Jacinta já era avançada na idade e, do que me é dado lembrar, não fez caso disso. Acho que não percebeu ou não quis perceber. Já estava velhinha.
Quando fizemos 15 anos passámos para o liceu e, como éramos do mesmo colégio, aproximámo-nos. A Marta apaixonou-se por mim. Um dia, no segundo período, convidou-me para almoçar. Fomos ao Mega Hamburguer, um restaurante do tempo em que Fast Food era uma expressão inglesa para quem não conhece a língua. Ela disse-me que gostava de mim e queria namorar, mas eu não a via da mesma forma. Para ficarmos em paz um com o outro, combinámos que aos 40 anos, se ambos estivéssemos sozinhos, voltaríamos a tentar namorar. Ela é que gostava de mim, mas eu aposto que sou o único a lembrar-me disto.
A Marta depois meteu-se na droga e fodeu com metade da escola. Era de Humanidades e talvez, à data, isso fosse critério de inclusão social. Ou então não fodeu com ninguém e sou eu que faço essa representação caricaturada da memória.
Faltam pouco mais de 10 anos e eu continuo a não gostar dela... E mesmo que gostasse só teríamos relações com preservativo. Não confio na malta de Humanidades, aquilo é cheio de vegetarianos.
Descobri esta música algures no final de 2011, num contexto próprio em que ela fazia sentido e numa realidade de vida longínqua com nome próprio.
Hoje é raro ouvi-la. Por vezes vou a conduzir e escolho-a quando me escorregam os dedos. Viajo sempre com prazer, no tempo e no coração. É bom, já são poucas as músicas que me oferecem isso e nem todas contam histórias bonitas.

Toothpick

Há uma entrada neste blog, uma referência a Family Guy já com alguns meses, que na altura gravei por associação mas a que dou cada vez mais valor.
Depois de jantarem num restaurante chique, o empregado oferece ao Peter um palito. Este pega nele e, interrogando-se, a medo, abre a boca grande mete-o devagarinho lá para dentro. A Lois diz-lhe, frustrada, que um palito não se usa assim, usa-se para palitar os dentes, como o nome indica. Parece inacreditável que tenham que lhe explicar como se usa um palito.
Resignado, Peter responde-lhe: "I have gaps in my knowledge, this is hardly news."

É exactamente como eu me sinto. Eu tenho falhas graves de conhecimento, a todos os níveis. Profissional, social, até das pequenas coisas do quotidiano que são banais ao resto das pessoas. Sejam nomes de comidas ou mesmo de objectos. E o pior é que não os memorizo por repetição. Isto é grave e ninguém acredita em mim. Ainda hoje ao jantar no café aqui do lado perguntei ao Sr. Amorim que pratos havia. Dobrada com feijões e espetada de carne. Pedi espetada porque não sei o que é dobrada. É triste, mas é verdade.

"I'll handle this. All right, here's what you're gonna do: skip the live music. Get yourself a room over at the Wickford Marina. Take her out on a balcony, point to any boat in the harbor, and tell her it's yours. Now, you got rubbers? Now that I'm a toothpick guy, I call 'em rubbers. Or you could just pull the hose out of the bucket and let it spray free."

Já pesquisei dobrada no google. Afinal sabia o que é.

terça-feira, 27 de março de 2018


Esta é, com grande probabilidade, a carta mais acertada que alguma vez me escreveram.
E é isto, no fundo. É isto. Amanhã levanto-me de manhã como se todo este suicídio cantado, este freakshow de vontades egoístas me fosse totalmente alheio. Amanhã de manhã quem for como eu não me pertence nem se me aproxima. Serei outra pessoa, num universo diferente desta bolha esquizóide que me corrói por dentro.
Está sempre lá, a puta da bolha, fechada algures a fumar cigarros.
Banalizei os cigarros como banalizei os falhanços repetidos de me adaptar aos outros.
E é isto, no fundo, é isto a esta hora e neste lugar já gasto de tanta banalidade.
Ninguém sabe disto, claro, quem soubesse acabaria por me odiar, mais cedo ou mais tarde. Eu sei, e odeio-me, mas só quando não parece.


"Tired and wired, we ruin too easy.
Sleep in our clothes and wait for winter to leave.
And I'll be with you, behind the couch
When they come on a different day, just like this one."

Eu

"Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere."

Eu!!! É isto que sinto que sou e que tão difícil me é explicar e fazer compreender, justamente porque sou assim, um rapaz rasca e foleiro, mal preparado e de conceitos sociais duvidosos. As pessoas não entendem porque eu não escrevo como o Mia Couto. Ser objecto da sua escrita já é, no entanto, de um certo valor acrescentado.
Hoje voltei a jogar Lol, um ano depois do último jogo. Voltei finalmente a conversar o Marrão. O Marrão é um amigo de infância, que Coimbra teve o carinho de não separar. O Marrão é mais uma das minhas representações platónicas de uma realidade infantilizada, de uma bolha pessoal que me separa do mundo em que estou mergulhado o resto do tempo.
O Marrão tinha deixado Coimbra para ir viver para Itália. Conheceu uma rapariga com quem vivia há dois anos perto de Roma. Ontem largou tudo e foi viver para Bristol. As coisas não estavam bem, ou estavam bem mas ele achou que não.
O Marrão suicidou-se de estar. Teve a coragem que vejo em todas as pessoas que não são como eu. Ele não é como eu. Tem uma bolha diferente.
Uma vez escrevi aqui um texto sobre ele, depois de uma conversa prolongada que tivemos sobre mim, intervencionada com imensos clichés e lugares comuns.
Foi bom saber que também eu, chamado a opinar, tenho os meus próprios recursos de frases feitas e doutrinas de generalidades a distribuir. O Marrão não sabe que agora estou aqui a escrever sobre ele. Tal como eu não sei se, naquele dia, ele não se recolheu num sítio qualquer de conforto próprio a sofrer por comparação e desvantagem como eu sofro agora.
Voltei a fumar. A única coisa verdadeiramente meritória que consegui na vida, deixar de fumar, perdeu-se nesta espiral de negativismo que me consome de forma tão descontrolada.
Acabei de comprar um maço de Camel activate. O tipo de tabaco de quem fuma para mostrar que fuma. Não é o caso. Os cigarros não sabem a nada, mas cheiram bem. Cheirá-los faz-me viajar. Não sei bem para onde, nem para que passado. Não sei em que passado quero estar, se chego mesmo a querer algum. Acho que a saudade que sinto é só a manifestação inadequada de que não estou bem comigo.
O meu passado envergonha-me, todo ele, mesmo aquele em que fui genuinamente feliz, mesmo que não tenha sido assim tão genuinamente como na altura parecia... A evidência do acontecido é mesmo isso.
Aqui estou eu, quase a dormir de pé, no Penedo da Saudade, a cheirar cigarros de forma perversa antes de os fumar. A assustar-me com um filha da puta que me apareceu de repente em frente ao carro, a olhar um infinito que ainda não percebi qual é. Aqui estou eu, na mesma posição, da mesma forma e com os vícios constantes dos últimos cinco anos, que são em tudo semelhantes às posições, formas e vícios que tive nos cinco anos anteriores, e nos outros tantos que os precederam.
É o meu canto de conforto e nada há de diferente que me sobre a força de fazer.


"This one's like the wilderness without the world. I'm gonna miss those longs nights with the windows open.
I keep re-reading the same lines always up at 5am every morning.
Like a baby"

domingo, 25 de março de 2018

Poopy face tomato nose

Back to the future.

Sold!!!, to the man with the excepcional beard

Now if I was old Ben, I would have cut my daddy's goddamn throat, and it wouldn't have taken me no fifty years to do it neither.
Me, I can't usually get them 'cause my girlfriend's a vegetarian, which pretty much makes me a vegetarian.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Reformem-me por a cabeça

Eu sou uma pessoa doente.


Well, come on inside and get yourself somethin' cool to drink.

Melodrama

This is the last time.
This is the last time.
We were so under the brine
We were so out of our minds
We were so under the brine
We were so vacant

quarta-feira, 21 de março de 2018

Ontem à noite vi um ouriço cacheiro. Não trocámos muitas ideias mas deu-me a sensação que ele se estava a cagar para mim.
Estás a ver António, o senhor doutor escreve como a Mónica.
Quem é a Mónica?
É a nossa netinha. Ela até escreve bem, mas escreve à esquerda. A gente bem tenta, mas ela não consegue.

Ocorreu-me daí um silêncio confuso e amorfo que não destoou da generalidade dos restantes momentos.

A minha canção favorita nunca se desactualiza

Oh, we're so disarming, darling, everything we did believe is diving, diving, diving, diving off the balcony.
Tired and wired, we ruin too easy. Sleep in our clothes and wait for winter to leave.

segunda-feira, 19 de março de 2018

domingo, 18 de março de 2018

Sobre o dia de hoje

Today you were far away, and I didn't ask you why. What could I say? I was far away. You just walked away, and I just watched you. What could I say? How close am I to losing you?

What we do in the shadows

"This is always rrreally scarrry parrt for me."

Claustrophobic turtle

I'm scared inside and i'm scared outside.


Acordei agora de um sonho estranho em que eu não tinha vergonha e ela tinha bigode. Já não sonhava assim há muito tempo. Ficou-me uma dormência da hemiface esquerda e o som repetido de um serviço de pratos na cabeça.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Someone send a runner for the feeling that i lost today

Estou doente, cada vez pior.
Hoje vi dez pessoas a tentar salvar a vida a uma mulher de 33 anos que é professora de ballet.
Não me fez bem.



quinta-feira, 15 de março de 2018

JS

"Regressados de uma viagem à Argentina e Bolívia, os meus cunhados María e Javier trazem-me o jornal Clarín de 30 de Agosto. Aí vem a notícia de que vai ser apresentada no Parlamento peruano uma nova lei de turismo que contempla a possibilidade de entregar a exploração de zonas arqueológicas importantes, como Machu Picchu e a cidadela pré-incaica de Chan Chan, a empresas privadas, mediante concurso internacional.
Clarín chama a isto «la loca carrera privatista de Fujimori». O autor da proposta de lei é um tal Ricardo Marcenaro, presidente da Comissão de Turismo e Tele-comunicações e Infra-Estrutura do Congresso peruano, que alega o seguinte, sem precisar de tradução: «En vista de que el Estado no ha administrado bien nuestras zonas arqueológicas - qué pasaría si las otorgaramos a empresas especializadas en esta materia que vienen operando en otros países con gran efectividad?» A mim parece-me bem. Privatize-se Machu Picchu, privatize-se Chan Chan, privatize-se a Capela Sixtina, privatize-se o Pártenon, privatize-se o Nuno Gonçalves, privatize-se a Catedral de Chartres, privatize-se o Descimento da Cruz de Antonio da Crestalcore, privatize-se o Pórtico da Glória de Santiago de Compostela, privatize-se a cordilheira dos Andes, privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for o diurno e de olhos abertos. E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... E, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos."
O ambiente de trabalho do portátil dela tem um fundo todo preto com imensos ícones de ficheiros aleatórios espalhados no ecrã que melhor será não comentar. Por detrás dos ícones, bem centrado na imagem, em letras brancas de tamanho adequado, diz algo que nunca vi antes: "Proibida a entrada a quem não se espanta de existir."

Como assim, proibida a entrada?

quarta-feira, 14 de março de 2018

Não é esta a canção

Sorrow found me when I was young
Sorrow waited, sorrow won
Sorrow, they put me on the pill
It's in my honey, it's in my milk
Don't leave my hyper heart alone on the water

Cover me in rag and bone and sympathy
'Cause I don't want to get over you
I don't want to get over you

Sorrow's my body on the waves
Sorrow's the girl inside my cake
I live in a city sorrow built
It's in my honey it's in my milk

Don't leave my hyper heart alone on the water
Cover me in rag and bone and sympathy
'Cause I don't want to get over you
I don't want to get over you

Don't leave my hyper heart alone on the water
Cover me in rag and bone and sympathy
'Cause I don't want to get over you
I don't want to get over you
À meia noite, sozinho, parei em frente a uma porta entreaberta de um prédio antigo na Rua dos Combatentes. Lá dentro estava tudo escuro, não sei se do contraste, não sei se de propósito. Não entrei, não sabia se haveria de entrar.
A minha música favorita seria a mesma se tivesse entrado. Mas a imagem ficou-me na cabeça o resto da viagem, pelo menos o resto da viagem. Era uma viagem, certo?

segunda-feira, 12 de março de 2018

É a rodar Nicolau, é a rodar

A rodar é mais difícil, assim também eu.

Em círculos é mais difícil.

sábado, 3 de março de 2018