Telemóvel - Memorandos 02.06.2015:
09h38m
Estou no hospital enquanto utente. Estou ensonado, mal humorado, deprimido, sentado ao lado de uma velha que ainda não se calou um minuto a tentar perceber o que se passa comigo, como e porque é que vim aqui parar. Insiste em explicar-me o algoritmo de procedimentos que me levarão ao atendimento. Ter uma velha a transmitir-me, em tom enfatuado e instrutivo, que tenho de bater à porta e esperar que atendam porque devem de certeza estar ocupados, quando está escarrapachado na porta, a letras gordas: 'Por favor, bata à porta e aguarde que o atendam.', habitualmente seria cómico, hoje é insuportável. Epa, oh velha, cale-se um bocadinho...
10h:20m
A velha só se calou quando veio uma enfermeira falar para mim como se eu fosse uma velha. E ficou de boca aberta, estupefacta e abelhuda, a escutar religiosamente as perguntas da enfermeira e as respostas que lhe dava. Não me faz diferença, não tenho segredos para a velha. E de qualquer das formas, estamos todos para o mesmo. Batamos às portas e aguardemos, silenciosos ou tagarelas, que se desocupem os ocupados e nos atendam os atendedores.
11h:16m
Quando estou assim sou um psicopata em potencial. São mortes e fugas de ideias e misturas explosivas e violência, tudo no domínio da imaginação; tudo no poço da Alice sob comando de um coelho esquizofrénico sem escrúpulos nem ética.
23h:02m
Olho para trás e sei que cometi erros graves, mas também sei que a determinada altura houve um desequilíbrio assustador na proporção do que não era suposto ser equacionado. Ela repetiu-me algumas vezes que um dia haveria de encontrar a sua alma gémea. Encontrou outra alma qualquer, não sei se a gémea, se a que queria, mas encontrou outra alma, de quem escreve coisas que nunca pensaria da alma que fui. É a lei dos assuntos das almas. São as teorias recambolescas das velhas.
01h:13m
Passeio de carro à noite porque essa é a forma mais corriqueira que encontro de me sentir livre. Conduzo sem destino definido, oiço músicas tristes, fumo cigarros avulso, páro em locais de memórias nostálgicas. Não conheço maior libertação do resto do mundo que essa.
A outra forma, menos intensa, é escrever estas parvoíces aqui. Sem regras, sem prazos, sem modos. Escrevo o que me apetece, alivio o espírito, ninguém sabe.
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