segunda-feira, 1 de junho de 2015

Noite 22

Há uma desconsciencialização generalizada sobre o não aproveitar a vida e a suas vantagens. Por oposição, as pessoas tendem a sobrevalorizar a ideia que lhes incutiram de que a vida tem um peso relativo maior se estiverem sempre a fazer coisas, a viajar, a apaixonar-se, a foder, a comer pratos dignos de fotografias parolas. Não concordo! Combato a impotência com inutilidade. Gosto de me conspurcar na ideia feita de que sou imprestável, insignificante e incomodativo. Gosto de não fazer nada. Perder cinco minutos interrompidos de cada vez a não pensar, a não fazer, sem ninguém me chatear. O meu pressuposto de fim-de-semana perfeito é estar em casa, fechado, sozinho, sem dizer uma única palavra que seja, sem receber uma única chamada ou mensagem, sem comer nada que preste. Sair para comprar tabaco e voltar absorto, distante, tóxico e imundo de ter percebido que nunca deveria ter saído em primeiro lugar.

É engraçado, e a palavra hoje é mesmo esta, ver como duas pessoas passam de melhores amigas a completos estranhos, como objectos que se colocam no bolso de trás das calças. Ela não sabe sequer que é sobre ela que escrevo e eu caminho de braço dado com a decadência de conceitos idos. A vida dela seguiu o caminho previsível que todas as vidas seguem. A minha vida seguiu o caminho previsível que a minha vida segue. Ela está apaixonada pela pessoa a seguir e eu estou apaixonado pelas idealizações de outrora. Assim está bem e não há mal nenhum que caia ao mundo por isso. A monotonia é companheira da perfeição e eu lamento profundamente que essa seja, invariavelmente, uma realização extemporânea.
Hoje somos assim. Ela só tem medo que o céu lhe caia em cima da cabeça. Eu só tenho medo que o céu lhe caia em cima da cabeça.
As saudades que temos aprendemos a dominá-las estando sozinhos. É um trabalho pacato de imaginação e ressuscitação de momentos especiais com um fim em si mesmo. Nas últimas noites nem tenho precisado sair de casa. Sento-me em frente ao computador, com um cigarro nos lábios, e faço-o sozinho, inspirando e esfumaçando o ar enevoado e decomposto da sala iluminada por um candeeiro pálido que não lhe deveria pertencer.

I keep coming back here where everything slipped
But I will not spill my guts out

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