segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Dia 1

"Como suportar o tédio da vida?"
Avisaram-me durante muitos anos que seria patológico, talvez até perigoso. E quem sabe não seja verdade. Esta atitude permanente do "quero que se fodam tudo e todos" é confortável a curto prazo, claro que é. É melhor assim que guardar frustrações e raivas encapotadas que mais cedo ou mais tarde não vou conseguir controlar. Mas falta um projecto, um plano a médio prazo. E nesse plano, o quero que se fodam todos converge num toda a gente estima bem que eu me foda. Obviamente que toda a gente se estava a cagar para mim muito antes de eu me estar a cagar para eles. Mas isso não justifica e já nem sequer alivia.
Porventura é geral e eu sou demasiado limitado para o compreender. Toda a gente quererá que toda a gente se foda. Mas há quem consiga lidar com isso e não cair no poço onde estou enfiado.
O patológico não está só aí. Eu não sei explicar, não sei mesmo. Não só não sou nenhum Fernando Pessoa nem nenhum Hemingway (que, a propósito, quero que se fodam), como deixo muito a desejar às capacidades esperadas duma pessoa da minha idade e literacia. Parece que há uma névoa que não me deixa pensar ou agir. Confundo permanentemente a realidade com a imaginação e bloqueia-me a memória turva dos acontecimentos. Fica tudo às fatias. Não são alucinações nem delírios. É como se nada tivesse consequências. Não sei explicar, não consigo.
Assim não dá. A continuar assim vou acabar internado a vestir um roupão depois de almoço e a cravar cigarros à porta dum asilo. Tenho que fazer alguma coisa por mim.
Só tenho duas hipóteses, ou me mato, ou subo uns degraus na faixa de QI e aprendo a lidar com todos estes arrependimentos e frustrações e zangas e diálogos inacabados. As duas hipóteses não se cruzam, a não ser por incómodo ou coincidência oportuna.
Não há incondicionalismos em relação nenhuma, por isso esta lufada de auto-consciência tem de ser uma boa oportunidade para deixar de vez a ideia de que eu e o próprio espaço damos conta do recado sozinhos.

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