sábado, 12 de dezembro de 2015

Há muito tempo atrás, antes de ter carta de condução, muito antes de ter carta de condução, costumava perguntar à minha mãe se tinha prazer em conduzir. A resposta era sempre a mesma, invariavelmente. Não. Raramente. Não temos prazer com algo que fazemos todos os dias. Como em quase tudo, a minha mãe não tinha razão.
O prazer não tem relação directa com preenchimento, nem o preenchimento é sinónimo de felicidade, ou o contrário de vazio. Prazer é uma sensação confortável mal definida, de curta duração, que, mediando a indiferença, precede o vazio pelo maior intervalo possível. Preenchimento é quando damos asas à imaginação e o coração bate mais depressa durante cinco segundos. Depois pára, desaparece, já não dá. Tem um tempo refractário incerto até se repetir da vez seguinte.
O resto? O resto não é vazio nem é indiferença. Não. Isso é só quando estamos tristes. O resto são bocadinhos soltos de tempo perdido.
Não gosto de conduzir. Gosto parar o carro num local sossegado, debaixo de um candeeiro de luz amarela e fumar um cigarro de janela aberta pelo espelho adentro.

Love is a fog that burns with the first daylight of reality.

Mas arde todas as madrugadas, da mesma forma, assim, simplesmente, ardendo.

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