09h
Passei a noite com sonhos absurdos. Levantei-me cedo para estudar no café. A miúda da mesa da frente fuma Ventil. Virou-se para mim, sem esboçar qualquer expressão facial, e ordenou-me que lhe emprestasse o isqueiro. "Bom dia! Empresta-me o isqueiro."
Sou mesmo um menino de coro. Acho que vou começar também a fumar Ventil.
16h
Um amigo meu veio de Itália passar a semana a Coimbra. Fomos visitar uns amigos dele na casa onde vivia e que ainda não acabaram o curso. Eu já os conhecia do futebol. Um deles abriu a porta de robe, às quatro da tarde. Que nostalgia! A casa toda fodida, cheia de merdas do Mac e caixas de pizza espalhadas por todo o lado. A mesa toda porca, os sofás rasgados, um deles a almoçar uma merda que nem o meu cão comia e o outro sentado num puff, com a televisãozinha a meio gás, a coçar os tomates debaixo do pijama. Que nostalgia!
O jardim lá fora com relva praí com meio metro cheia de ervas daninhas. Deve albergar mais de mil espécies. Parece o Vietname aquela casa. Que saudades!
18h
No Avenida a beber uns finos e a fumar cigarros. O rapaz do café finge sempre que me conhece mas não sabe o meu nome. Eu sei o dele, mas não perderia grande coisa se não soubesse.
Estivemos lá praí hora e meia. Foi a primeira vez que desabafei com alguém, abertamente, tudo aquilo que me vai na alma. Ele anuiu com meia dúzia de clichés que, de facto, fazem muito sentido. Os clichés fazem sempre sentido e deviam ser mais valorizados. Ainda não tinha dado oportunidade a ninguém de me ouvir e de debitar as frases feitas que compõem o ramalhete. Não me senti pior nem melhor, fiquei na mesma.
01h
Jantei com um pessoal de Farmácia num tasco perto da igreja de Santo António dos Olivais. Estava um grupo por trás, do qual fazia parte uma das raparigas mais giras que alguma vez vi. Incrível, mesmo.
Estávamos a beber uns bagacitos ao balcão, no final, quando ela veio pagar. Incrível, mesmo! Era difícil conseguir parar de olhar para ela. Perguntaram-lhe se queria beber alguma coisa. "Sim. Whisky!" (foda-se, shots de whisky?). Perguntaram-lhe o nome. "Ana." Ficaram satisfeitos com a puta da resposta mais inespecífica que podia ser dada. Ana. Lol. Ela retorquiu a pergunta, simpaticamente. Obviamente que se estava completamente a cagar para as respostas. Tremi todo quando chegou a minha vez. Respondi Zé, foda-se, olha que caralho.
Bebemos muito. Vieram cá para fora falar de pornografia e mais não sei quê. Eu fui mijar perto de um placard com a figura de Santo António. Tirei uma foto. Estava bêbado, muito bebâdo, todo fodido.
Caminhámos para a Praça e no caminho tomei uns chás, armado em parvo. Já não tomava chás desde Maio de 2012. Bateu-me um pouco mal, claro. A Praça estava a abarrotar de gente. Desorientei-me e dei por mim a vomitar num sítio qualquer por causa das vertigens. Não sei precisar tão bem a última vez que vomitara, mas havia sido há muito tempo, certamente.
03h
Dois amigos encontraram-me e trouxeram-me a casa. Ele ficou lá. Não consegui dizer uma palavra que fosse o tempo todo, nem agradeci no final. Mas lembro-me de tudo.
Abri a porta e, enjoado, fui-me sentar ao lado da sanita onde fiquei prostrado. Chorei até ele chegar.
12h
Sentámo-nos a almoçar na varanda do Fórum com vista para a cidade. Não estava sol mas também não se podia chamar àquilo mau tempo, nem sequer farrusco.
Gastei 20€ no Burger King. Fumei 10 cigarros em hora e meia. Falámos da miúda, que era incrível, de facto. Falámos bastante dela. Falámos de Monty Python, daquele sketch do gajo gordo no restaurante que já está completamente cheio, e o empregado vem oferecer uma bolacha. "Só mais uma bolachinha." Eu estava assim.
18h
Ele foi embora. Estou sozinho outra vez. Sem chorar, porque não quero agora.
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