domingo, 20 de dezembro de 2015

Average Dick Club

Fiz um grande amigo este ano. Acho até que foi o único amigo que fiz desde que sou interno de especialidade. É casado há dois anos e vai fazer exame final daqui a 3 meses. Ensinou-me imensas coisas, outras aprendi escondido de o ver fazer. Se sou melhor hoje do que era há um ano é essencialmente graças a ele.
Hoje contou-me que a esposa lhe pediu o divórcio. Não sabe bem porquê. Sabe que há umas semanas que não estavam bem. Não sabe bem porquê.
Depois não há nada a acrescentar.
Este é o último post que faço neste blog. Estava a pensar guardar isso para a passagem de ano, como parte de um plano maior de reconquista e romance de filme parolo. Mas não faz sentido, estou cansado de falar sozinho.
Talvez em uma outra altura, num outro sítio, eu volte remendar linhas descosidas de todos os dias. Talvez em outra vida, sem tantos erros e tantas saudades. Talvez.
A vida é mesmo assim. Não é de mim. Não sou eu que sou especialmente bom ou especialmente mau. É mesmo assim, somos todos assim. É o que é, e o que já foi já foi.
Vou morrer como toda a gente. E alguém há-de sentir-me, no meu funeral ou num funeral parecido com o meu. Levarei tudo isto comigo como se nada disto se tratasse, ou como a mala fechada que vemos partir lentamente das cortinas sem culpa.



sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

MEC IV

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

PCF

Escolheu, depois de muito ponderar, a saia azul, bem justa, para levar ao momento mais importante da sua vida. Maquilhou-se com o cuidado de quem prepara uma bomba atómica, cada fio no seu lugar, escolheu as botas de cano alto para se sentir mais protegida, como se a pele tapada a protegesse do mundo, olhou-se a medo ao espelho no final, e esboçou o sorriso possível, os lábios trémulos e um aperto nos olhos, a ansiedade inteira a governar o corpo.
“Perdoa-me”, em frente ao espelho ele ensaiava o que tinha para dizer, “perdoa-me por algum dia ter acreditado que havia vida sem que houvesses tu”, com ar confiante, seguro de si, “quero-te para sempre e tenho a certeza de que vai saber a pouco”, e saiu para a rua, o fato impecável, os sapatos impecáveis, o amor impecável, a realidade, só ela, manchada de um erro que queria agora corrigir.
Encontraram-se no café de outrora, a mesa vazia como se os esperasse. Ele chegou primeiro, as palavras ensaiadas bem decoradas na sua cabeça, os gestos, até os gestos, pensados até ao mais último pormenor. Até que ela chegou, os passos como se pisassem pessoas, a saia azul justa e os homens todos a olhar. Ele disse o que tinha para dizer, ela ouviu o que tinha para ouvir. Quiseram os dois abraçar-se logo ali, antes que o mundo acabasse. Mas nenhum assumiu o risco. Ele esperou que ela dissesse “sim, perdoo-te”, ela esperou que ele dissesse “desculpa mas vou abraçar-te toda mesmo que contra a tua vontade”.

E o tempo certo para o momento certo perdeu-se.

Em casa, ela despiu a saia azul, descalçou as botas de cano alto e cedeu, o corpo pousado na cama como se de repente sem sangue. Ele ainda ficou no café alguns minutos, apenas a despedir-se do que não fora capaz de fazer, antes de lentamente voltar para o quarto vazio, o cheiro dela e as roupas dela, se fosse um homem corajoso teria tido a cobardia de desistir da vida.
Casaram-se e foram quase felizes para sempre. Não um com o outro, claro. Ela encontrou um homem perfeito e ele encontrou uma mulher perfeita. Foram andando e, com o tempo, foram desaprendendo a maneira como um dia correram, o que um dia os fazia correr e saltar – mas nunca andar. Vieram os filhos, novos desafios, as rugas, os netos, a pele a ceder e o tempo todo a fazer-se de episódios cada vez mais raros de paixão. Haveriam de morrer distantes, tão distantes quanto a geografia o permitia, até o tamanho insuportável de um mar a separá-los. Certo é que, estranhamente, as lápides de ambos continham o mesmo erro, “uma gralha imperdoável”, segundo os respectivos marido e mulher: a data do falecimento apontava para há mais de trinta anos, nunca ninguém conseguiu entender porquê. A inscrição, essa, imediatamente abaixo da data, é que não tinha qualquer falha.

sábado, 12 de dezembro de 2015


Call it dysfunctional

Ontem vi um documentário sobre os anos 90, a década de maior crescimento económico e da verdadeira globalização ocidental. Se calhar a década de maior perversão social generalizada.

Vi também um programa sobre pescadores de atum a competir pelo maior prémio da temporada, com suspense até ao final.


It makes no sense, it doesnt fit. If it doesnt fit, you must acquit.
Há muito tempo atrás, antes de ter carta de condução, muito antes de ter carta de condução, costumava perguntar à minha mãe se tinha prazer em conduzir. A resposta era sempre a mesma, invariavelmente. Não. Raramente. Não temos prazer com algo que fazemos todos os dias. Como em quase tudo, a minha mãe não tinha razão.
O prazer não tem relação directa com preenchimento, nem o preenchimento é sinónimo de felicidade, ou o contrário de vazio. Prazer é uma sensação confortável mal definida, de curta duração, que, mediando a indiferença, precede o vazio pelo maior intervalo possível. Preenchimento é quando damos asas à imaginação e o coração bate mais depressa durante cinco segundos. Depois pára, desaparece, já não dá. Tem um tempo refractário incerto até se repetir da vez seguinte.
O resto? O resto não é vazio nem é indiferença. Não. Isso é só quando estamos tristes. O resto são bocadinhos soltos de tempo perdido.
Não gosto de conduzir. Gosto parar o carro num local sossegado, debaixo de um candeeiro de luz amarela e fumar um cigarro de janela aberta pelo espelho adentro.

Love is a fog that burns with the first daylight of reality.

Mas arde todas as madrugadas, da mesma forma, assim, simplesmente, ardendo.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015


Cheguei a casa e a minha mãe tinha acabado de montar uma mini-árvore de Natal ao lado do meu sofá. Sublinhar a palavra meu.



And ill be with you, behind the couch, when they come on a different day, just like this one.

O mundo é um lugar estranho

terça-feira, 8 de dezembro de 2015


I've been to this liquor store many of times. Great place.

My first night at this bar im writing about (thats what appeased me, attracted me). I walked in, half dead, i just went in for a beer. It wasnt even at night, it was about one in the afternoon. I walked in and that place was packed, it was in a poor neighbourhood. I sat down, drank a beer, looked around. It was packed, everybody was crazy and drunk! Theyre all drinking beer, but all of a sudden, there came a bottle flying through the air. This guy next to me turns around, he says ‘You ever do that again man, ill kill you!’ I said, Boy, this is the place i wanna be, something’s finally happening. Another bottle flew by through the air and crashed. The bartender just poured another drink, he didnt say anything. I thought, This is my Nirvana, everything’s happening... open violence, decent open violence.

CB

"we had goldfish and they circled around and around
in the bowl on the table near the heavy drapes
covering the picture window and
my mother, always smiling, wanting us all
to be happy, told me, 'be happy Henry!'
and she was right: it's better to be happy if you
can
but my father continued to beat her and me several times a week
while
raging inside his 6-foot-two frame because he couldn't
understand what was attacking him from within.

my mother, poor fish,
wanting to be happy, beaten two or three times a
week, telling me to be happy: 'Henry, smile!
why don't you ever smile?'

and then she would smile, to show me how, and it was the
saddest smile I ever saw

one day the goldfish died, all five of them,
they floated on the water, on their sides, their
eyes still open,
and when my father got home he threw them to the cat
there on the kitchen floor and we watched as my mother
smiled"

BS IX

"Passávamos, jovens ainda, sob as árvores altas e o vago sussurro da floresta. Nas clareiras, subitamente surgidas do acaso do caminho, o luar fazia-as lagos e as margens, emaranhadas de ramos, eram mais noite que a mesma noite. A brisa vaga dos grandes bosques respirava com som entre o arvoredo. Falávamos das coisas impossíveis; e as nossas vozes eram parte da noite, do luar e da floresta. Ouvíamo-las como se fossem de outros. Não era bem sem caminhos a floresta incerta. Havia atalhos que, sem querer, conhecíamos, e os nossos passos ondeavam neles entre os mosqueamentos das sombras e o palhetar vago do luar duro e frio. Falávamos das coisas impossíveis e toda a paisagem real era impossível também."

BS VIII

"(...) Quando ontem me disseram que o empregado da tabacaria se tinha suicidado, tive uma impressão de mentira. Coitado, também existia! Tínhamos esquecido isso, nós todos, nós todos que o conhecíamos do mesmo modo que todos que não o conheceram. Amanhã esquecê-lo-emos melhor! (...)"

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

domingo, 6 de dezembro de 2015

sábado, 5 de dezembro de 2015

Fumo cada cigarro como se os meus defeitos, ansiedades, projectos e arrependimentos se queimassem até ao filtro. Nunca funciona. Nem por cinco minutos. Continuo a tentar, vinte vezes por dia, mais defeito menos defeito.
Acordei para aquele texto e interpretei-o da forma exacta à que me foi transmitida no Avenida.
Vivo entre pedaços de imaginação sem correspondência nenhuma. Sou o antes do antes em todo o lado menos na minha cabeça. Chama-se obsessão. A obsessão trata-se, tem de se tratar.
Ele não usou clichés, disse simplesmente tudo aquilo que lhe pareceu pertinente. E teve razão.
Apaguei o último parágrafo. Vou estudar à tarde para o Avenida e depois logo se vê. É sempre assim. E assim é bem mais fácil.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Schnook

Acabei de responder a um inquérito intitulado: "Burnout em Médicos e Estudantes de Medicina".
O resultado final da avaliação:
1. Não estou despersonalizado.
2. Não estou desgastado emocionalmente.
3. Tenho realização pessoal.

Foda-se, sim senhor.




Não me critiquem as blusas


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

09h
Passei a noite com sonhos absurdos. Levantei-me cedo para estudar no café. A miúda da mesa da frente fuma Ventil. Virou-se para mim, sem esboçar qualquer expressão facial, e ordenou-me que lhe emprestasse o isqueiro. "Bom dia! Empresta-me o isqueiro."
Sou mesmo um menino de coro. Acho que vou começar também a fumar Ventil.

16h
Um amigo meu veio de Itália passar a semana a Coimbra. Fomos visitar uns amigos dele na casa onde vivia e que ainda não acabaram o curso. Eu já os conhecia do futebol. Um deles abriu a porta de robe, às quatro da tarde. Que nostalgia! A casa toda fodida, cheia de merdas do Mac e caixas de pizza espalhadas por todo o lado. A mesa toda porca, os sofás rasgados, um deles a almoçar uma merda que nem o meu cão comia e o outro sentado num puff, com a televisãozinha a meio gás, a coçar os tomates debaixo do pijama. Que nostalgia!
O jardim lá fora com relva praí com meio metro cheia de ervas daninhas. Deve albergar mais de mil espécies. Parece o Vietname aquela casa. Que saudades!

18h
No Avenida a beber uns finos e a fumar cigarros. O rapaz do café finge sempre que me conhece mas não sabe o meu nome. Eu sei o dele, mas não perderia grande coisa se não soubesse.
Estivemos lá praí hora e meia. Foi a primeira vez que desabafei com alguém, abertamente, tudo aquilo que me vai na alma. Ele anuiu com meia dúzia de clichés que, de facto, fazem muito sentido. Os clichés fazem sempre sentido e deviam ser mais valorizados. Ainda não tinha dado oportunidade a ninguém de me ouvir e de debitar as frases feitas que compõem o ramalhete. Não me senti pior nem melhor, fiquei na mesma.

01h
Jantei com um pessoal de Farmácia num tasco perto da igreja de Santo António dos Olivais. Estava um grupo por trás, do qual fazia parte uma das raparigas mais giras que alguma vez vi. Incrível, mesmo.
Estávamos a beber uns bagacitos ao balcão, no final, quando ela veio pagar. Incrível, mesmo! Era difícil conseguir parar de olhar para ela. Perguntaram-lhe se queria beber alguma coisa. "Sim. Whisky!" (foda-se, shots de whisky?). Perguntaram-lhe o nome. "Ana." Ficaram satisfeitos com a puta da resposta mais inespecífica que podia ser dada. Ana. Lol. Ela retorquiu a pergunta, simpaticamente. Obviamente que se estava completamente a cagar para as respostas. Tremi todo quando chegou a minha vez. Respondi Zé, foda-se, olha que caralho.
Bebemos muito. Vieram cá para fora falar de pornografia e mais não sei quê. Eu fui mijar perto de um placard com a figura de Santo António. Tirei uma foto. Estava bêbado, muito bebâdo, todo fodido.
Caminhámos para a Praça e no caminho tomei uns chás, armado em parvo. Já não tomava chás desde Maio de 2012. Bateu-me um pouco mal, claro. A Praça estava a abarrotar de gente. Desorientei-me e dei por mim a vomitar num sítio qualquer por causa das vertigens. Não sei precisar tão bem a última vez que vomitara, mas havia sido há muito tempo, certamente.

03h
Dois amigos encontraram-me e trouxeram-me a casa. Ele ficou lá. Não consegui dizer uma palavra que fosse o tempo todo, nem agradeci no final. Mas lembro-me de tudo.
Abri a porta e, enjoado, fui-me sentar ao lado da sanita onde fiquei prostrado. Chorei até ele chegar.

12h
Sentámo-nos a almoçar na varanda do Fórum com vista para a cidade. Não estava sol mas também não se podia chamar àquilo mau tempo, nem sequer farrusco.
Gastei 20€ no Burger King. Fumei 10 cigarros em hora e meia. Falámos da miúda, que era incrível, de facto. Falámos bastante dela. Falámos de Monty Python, daquele sketch do gajo gordo no restaurante que já está completamente cheio, e o empregado vem oferecer uma bolacha. "Só mais uma bolachinha." Eu estava assim.

18h
Ele foi embora. Estou sozinho outra vez. Sem chorar, porque não quero agora.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Que sa foda

Estou velho. Vejo-me ao espelho e já não me conheço. Tenho os olhos cansados e uma feição triste, a cara mais cheia e gasta do tabaco. Continuo feio como um chibo! Há coisas que nunca mudam.
Tinha qualquer coisa importante para dizer mas já não me recordo. Que sa foda, sinceramente, já me estou a cagar para o blog também.


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

"Afinal há pataniscas de bacalhau!"

Que forma brilhante de iniciar uma conversa no dia em que passam 80 anos da morte de Fernando Pessoa.