quinta-feira, 9 de agosto de 2012

5 de Dezembro de 2011

Há qualquer coisa de intenso em certas pessoas, que aprecio com a desconsciência de quem está bêbado. Qualquer coisa de ressonante nos outros que transforma o rigor da compreensão de mim próprio.
Perco a noção do ridículo quando admiro alguém com a razão de quem ama. Descalço-me do ego para me apaixonar. E quase tudo o que faço então é grotesco, quase tudo o que faço depois é cómico, é uma piscina de extravagâncias e uma sauna de exageros.
A paixão forte é um capricho de quem não tem problemas de fígado.
A paixão leve são dois 'shots' de vodka. Um para festejar e o outro para esquecer.

4 de Dezembro de 2011

Transita-me algures no corpo a sensação vaga mas firme de que sou constantemente observado pelas pessoas por quem estou apaixonado. Empresto-lhes uma omnipotência que nunca me conseguiram devolver. Persegue-me então a inconstância bipolar que envolve os sentimentos fortes.
Gostar de alguém porque se gosta mesmo de alguém, porque uma sensação vaga mas firme nos diz que gostemos de alguém, ajuda-me a estar em paz com o mundo, faz-me querer ser uma pessoa melhor. Todos queremos ser melhores quando somos observados.
Consumo muito menos pornografia quando estou apaixonado.

As cartas... As cartas...

Escrever cartas não é uma forma de comunicação, é uma maneira saloia de estar sozinho. Mais que isso!, é uma maneira errada de estar sozinho. Das muitas que existem, das várias que conheço pessoalmente.
É uma parvoíce. Escrever, no geral, é uma parvoíce. Cartas muito mais. Arrependo-me sempre, embora com diferentes graus de certeza, de escrever o que quer que seja. Mas não tenho arrependimento maior e mais certo do que viver num mundo em que se escrevem cartas.
Vejo frustração nos carteiros e revolta nas caixas de correio. Os envelopes enojam-me e os selos pesam-me perto da alma.

Não volto a escrever uma carta que não seja para enviar em branco, como o que sinto, quando me sinto sozinho.
Hoje escrevi mil cartas. Vou telefonar ao destinatário a avisar que enviei e a perguntar se recebeu.