quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Na cama 7 está um senhor de 60 anos, transplantado renal há 7 após electrocussão, sob imunossupressão com prednisolona e everolimus.
Está em D46 de internamento por reactivação de romboencefalite a herpes vírus 6, com afasia motora progressiva, disfagia para sólidos e líquidos e hemiparésia esquerda.
Cumpriu 26 dias de aciclovir, com persistência da pcr do vírus, pelo que se alterou terapêutica antiviral para foscarnet, de momento em D14.
Por ausência de melhoria do quadro neurológco fez EMG, compatível com doença do neurónio motor, a saber, esclerose lateral amiotrófica que se pensa estar relacionada com infecção crónica ao HHV6.
Nos últimos dois dias com febre sem clínica localizadora de foco, colhemos rastreio séptico e aguardamos resultados.

Foi assim que apresentei o doente da cama 7 na visita médica. Recebi em troca acenos de cabeça e interrogações académicas na forma de introspecção e interjeições.
Todos olham para ele como para um animal no zoológico. Os mais sensíveis confortam-se a si próprios dizendo "coitado!", "coitadinho!". Sempre alto o suficiente para ele ouvir. Ele é afásico, não é surdo nem parvo! Os mais intelectuais deleitam-se com o caso, questionam o nexo de causalidade e a pertinência curricular do diagnóstico.

O Sr. da cama 7, de quem ainda não falei, é o Sr. Griné. Era electricista mas um dia apanhou um choque. Sem saber porquê, disseram-lhe que tinha de se procurar um rim novo porque o dele já não estava a funcionar. Reformou-se.
Vivia sozinho antes de vir para o Hospital, mas tem uma nora que conversa com ele duas vezes por semana.
De manhã cumprimentamo-nos sempre. Ele estende-me a mão em garra e eu passo-lhe os dedos pelo cabelo e pela barba curta grisalha. Conversamos um pouco. Ele responde com sorrisos genuínos e uns rosnares simpáticos, abanando a cabeça. Eu, que de gestos percebo pouco, dou-lhe um papel e uma caneta para o perceber melhor. Agarra sempre caneta com os 4 dedos contra a mão e escreve só em maiúsculas.
Todos dias às 10 horas vai à fisioterapia. Passa de cadeira de rodas pelo gabinete médico de porta aberta e eu pergunto-lhe onde vai. Todos os dias, como se todos os dias ele fosse passear pelo mundo. Ele faz uns gestos de amplitude pequena com os braços fininhos, como que a dizer: exercício!!! E eu respondo-lhe com um fixe, até já. Ele levanta a mão em garra e abana-a, esboçando um sorriso e um som tão particular como explícito. Grrrraaaurrrr.
Quando fica nervoso começa a tremer muito e morde um guardanapo. Como no outro dia em que os senhores doutores discutiam o caso à frente dele e diziam que não valia a pena pedir consulta de neurologia, porque não há nada a oferecer. Não pediram consulta de neurologia. Mas ele precisa. Precisa de consulta de neurologia, gastroenterologia, pneumologia, psicologia, reabilitação, fisioterapia e, acima de tudo, precisa de carinho. Precisa que não o abandonem. Precisa que alguém lhe faça um fixe e lhe peça um grrrraaaurrr.
Ele gosta de festinhas, provavelmente mais do que de colher sangue para análises.
Hoje caiu na casa de banho. Pôs a mão à frente da cabeça e, como tem a pele fininha, lacerou o antebraço. Perdeu um retalho grande de pele. Quando cheguei ao quarto mordia o guardanapo e tremia com a ansiedade e com as dores.
Nunca mais o vão deixar ir à casa de banho sozinho, que era a única coisa que o fazia sentir-se independente.

Na cama 8 está o Sr. João, com aquele ar inocente e aluado, fofinho... Sempre a dizer-me desculpe senhor doutor, obrigado senhor doutor, muito obrigado e desculpe... senhor doutor.

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