quarta-feira, 30 de novembro de 2016
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
Ofereceu-me queques de mirtilo, carinhosamente cozinhados pelo namorado, como quem partilha um segredo que toda a gente conhece. Destapou a caixa com um sorriso parolo e mostrou-me os bolos, ali, cada um deles envolvido naqueles bocados de papel para bolos que não sei o nome.
Nunca fiz queques de mirtilo. Foda-se nunca fiz queques de merda nenhuma. Nem sei sequer o que são mirtilos. Pensava que era uma fruta silvestre tipo framboesa mas afinal parece que é tipo cerejas. Nunca fiz nada para ninguém. Nunca me interessaram as coisas banais de algo que se faz para alguém.
Os queques eram uma porcaria, e é também por isso que sou tão infeliz.
Nunca fiz queques de mirtilo. Foda-se nunca fiz queques de merda nenhuma. Nem sei sequer o que são mirtilos. Pensava que era uma fruta silvestre tipo framboesa mas afinal parece que é tipo cerejas. Nunca fiz nada para ninguém. Nunca me interessaram as coisas banais de algo que se faz para alguém.
Os queques eram uma porcaria, e é também por isso que sou tão infeliz.
Na cama 7 está um senhor de 60 anos, transplantado renal há 7 após electrocussão, sob imunossupressão com prednisolona e everolimus.
Está em D46 de internamento por reactivação de romboencefalite a herpes vírus 6, com afasia motora progressiva, disfagia para sólidos e líquidos e hemiparésia esquerda.
Cumpriu 26 dias de aciclovir, com persistência da pcr do vírus, pelo que se alterou terapêutica antiviral para foscarnet, de momento em D14.
Por ausência de melhoria do quadro neurológco fez EMG, compatível com doença do neurónio motor, a saber, esclerose lateral amiotrófica que se pensa estar relacionada com infecção crónica ao HHV6.
Nos últimos dois dias com febre sem clínica localizadora de foco, colhemos rastreio séptico e aguardamos resultados.
Foi assim que apresentei o doente da cama 7 na visita médica. Recebi em troca acenos de cabeça e interrogações académicas na forma de introspecção e interjeições.
Todos olham para ele como para um animal no zoológico. Os mais sensíveis confortam-se a si próprios dizendo "coitado!", "coitadinho!". Sempre alto o suficiente para ele ouvir. Ele é afásico, não é surdo nem parvo! Os mais intelectuais deleitam-se com o caso, questionam o nexo de causalidade e a pertinência curricular do diagnóstico.
O Sr. da cama 7, de quem ainda não falei, é o Sr. Griné. Era electricista mas um dia apanhou um choque. Sem saber porquê, disseram-lhe que tinha de se procurar um rim novo porque o dele já não estava a funcionar. Reformou-se.
Vivia sozinho antes de vir para o Hospital, mas tem uma nora que conversa com ele duas vezes por semana.
De manhã cumprimentamo-nos sempre. Ele estende-me a mão em garra e eu passo-lhe os dedos pelo cabelo e pela barba curta grisalha. Conversamos um pouco. Ele responde com sorrisos genuínos e uns rosnares simpáticos, abanando a cabeça. Eu, que de gestos percebo pouco, dou-lhe um papel e uma caneta para o perceber melhor. Agarra sempre caneta com os 4 dedos contra a mão e escreve só em maiúsculas.
Todos dias às 10 horas vai à fisioterapia. Passa de cadeira de rodas pelo gabinete médico de porta aberta e eu pergunto-lhe onde vai. Todos os dias, como se todos os dias ele fosse passear pelo mundo. Ele faz uns gestos de amplitude pequena com os braços fininhos, como que a dizer: exercício!!! E eu respondo-lhe com um fixe, até já. Ele levanta a mão em garra e abana-a, esboçando um sorriso e um som tão particular como explícito. Grrrraaaurrrr.
Quando fica nervoso começa a tremer muito e morde um guardanapo. Como no outro dia em que os senhores doutores discutiam o caso à frente dele e diziam que não valia a pena pedir consulta de neurologia, porque não há nada a oferecer. Não pediram consulta de neurologia. Mas ele precisa. Precisa de consulta de neurologia, gastroenterologia, pneumologia, psicologia, reabilitação, fisioterapia e, acima de tudo, precisa de carinho. Precisa que não o abandonem. Precisa que alguém lhe faça um fixe e lhe peça um grrrraaaurrr.
Ele gosta de festinhas, provavelmente mais do que de colher sangue para análises.
Hoje caiu na casa de banho. Pôs a mão à frente da cabeça e, como tem a pele fininha, lacerou o antebraço. Perdeu um retalho grande de pele. Quando cheguei ao quarto mordia o guardanapo e tremia com a ansiedade e com as dores.
Nunca mais o vão deixar ir à casa de banho sozinho, que era a única coisa que o fazia sentir-se independente.
Na cama 8 está o Sr. João, com aquele ar inocente e aluado, fofinho... Sempre a dizer-me desculpe senhor doutor, obrigado senhor doutor, muito obrigado e desculpe... senhor doutor.
Está em D46 de internamento por reactivação de romboencefalite a herpes vírus 6, com afasia motora progressiva, disfagia para sólidos e líquidos e hemiparésia esquerda.
Cumpriu 26 dias de aciclovir, com persistência da pcr do vírus, pelo que se alterou terapêutica antiviral para foscarnet, de momento em D14.
Por ausência de melhoria do quadro neurológco fez EMG, compatível com doença do neurónio motor, a saber, esclerose lateral amiotrófica que se pensa estar relacionada com infecção crónica ao HHV6.
Nos últimos dois dias com febre sem clínica localizadora de foco, colhemos rastreio séptico e aguardamos resultados.
Foi assim que apresentei o doente da cama 7 na visita médica. Recebi em troca acenos de cabeça e interrogações académicas na forma de introspecção e interjeições.
Todos olham para ele como para um animal no zoológico. Os mais sensíveis confortam-se a si próprios dizendo "coitado!", "coitadinho!". Sempre alto o suficiente para ele ouvir. Ele é afásico, não é surdo nem parvo! Os mais intelectuais deleitam-se com o caso, questionam o nexo de causalidade e a pertinência curricular do diagnóstico.
O Sr. da cama 7, de quem ainda não falei, é o Sr. Griné. Era electricista mas um dia apanhou um choque. Sem saber porquê, disseram-lhe que tinha de se procurar um rim novo porque o dele já não estava a funcionar. Reformou-se.
Vivia sozinho antes de vir para o Hospital, mas tem uma nora que conversa com ele duas vezes por semana.
De manhã cumprimentamo-nos sempre. Ele estende-me a mão em garra e eu passo-lhe os dedos pelo cabelo e pela barba curta grisalha. Conversamos um pouco. Ele responde com sorrisos genuínos e uns rosnares simpáticos, abanando a cabeça. Eu, que de gestos percebo pouco, dou-lhe um papel e uma caneta para o perceber melhor. Agarra sempre caneta com os 4 dedos contra a mão e escreve só em maiúsculas.
Todos dias às 10 horas vai à fisioterapia. Passa de cadeira de rodas pelo gabinete médico de porta aberta e eu pergunto-lhe onde vai. Todos os dias, como se todos os dias ele fosse passear pelo mundo. Ele faz uns gestos de amplitude pequena com os braços fininhos, como que a dizer: exercício!!! E eu respondo-lhe com um fixe, até já. Ele levanta a mão em garra e abana-a, esboçando um sorriso e um som tão particular como explícito. Grrrraaaurrrr.
Quando fica nervoso começa a tremer muito e morde um guardanapo. Como no outro dia em que os senhores doutores discutiam o caso à frente dele e diziam que não valia a pena pedir consulta de neurologia, porque não há nada a oferecer. Não pediram consulta de neurologia. Mas ele precisa. Precisa de consulta de neurologia, gastroenterologia, pneumologia, psicologia, reabilitação, fisioterapia e, acima de tudo, precisa de carinho. Precisa que não o abandonem. Precisa que alguém lhe faça um fixe e lhe peça um grrrraaaurrr.
Ele gosta de festinhas, provavelmente mais do que de colher sangue para análises.
Hoje caiu na casa de banho. Pôs a mão à frente da cabeça e, como tem a pele fininha, lacerou o antebraço. Perdeu um retalho grande de pele. Quando cheguei ao quarto mordia o guardanapo e tremia com a ansiedade e com as dores.
Nunca mais o vão deixar ir à casa de banho sozinho, que era a única coisa que o fazia sentir-se independente.
Na cama 8 está o Sr. João, com aquele ar inocente e aluado, fofinho... Sempre a dizer-me desculpe senhor doutor, obrigado senhor doutor, muito obrigado e desculpe... senhor doutor.
sábado, 19 de novembro de 2016
Bigotry
"Each act, each occasion, is worse than the last, but only a little worse. You wait for the next and the next. You wait for one great shocking occasion, thinking that others, when such a shock comes, will join with you in resisting somehow. You don’t want to act, or even talk, alone; you don’t want to ‘go out of your way to make trouble.’ Why not?—Well, you are not in the habit of doing it. And it is not just fear, fear of standing alone, that restrains you; it is also genuine uncertainty.
But the one great shocking occasion, when tens or hundreds or thousands will join with you, never comes. That’s the difficulty. If the last and worst act of the whole regime had come immediately after the first and smallest, thousands, yes, millions would have been sufficiently shocked—if, let us say, the gassing of the Jews in ’43 had come immediately after the ‘German Firm’ stickers on the windows of non-Jewish shops in ’33. But of course this isn’t the way it happens. In between come all the hundreds of little steps, some of them imperceptible, each of them preparing you not to be shocked by the next. Step C is not so much worse than Step B, and, if you did not make a stand at Step B, why should you at Step C? And so on to Step D."
But the one great shocking occasion, when tens or hundreds or thousands will join with you, never comes. That’s the difficulty. If the last and worst act of the whole regime had come immediately after the first and smallest, thousands, yes, millions would have been sufficiently shocked—if, let us say, the gassing of the Jews in ’43 had come immediately after the ‘German Firm’ stickers on the windows of non-Jewish shops in ’33. But of course this isn’t the way it happens. In between come all the hundreds of little steps, some of them imperceptible, each of them preparing you not to be shocked by the next. Step C is not so much worse than Step B, and, if you did not make a stand at Step B, why should you at Step C? And so on to Step D."
quarta-feira, 16 de novembro de 2016
Shush
Eu continuo a vir aqui muitas vezes mas o efeito já não é o mesmo. O sítio é o mesmo, as músicas são as mesmas, a luz ambiente é a mesma, os cigarros são os mesmos, as árvores são as mesmas (mais folhas menos folhas), as pessoas é como se fossem as mesmas também. O efeito não. O efeito é diferente. Não o saberia explicar bem mesmo que estivesse disposto a tentar.
Estou mais ansioso que o que tem sido habitual, o que não é comum.
Estou mais ansioso que o que tem sido habitual, o que não é comum.
terça-feira, 15 de novembro de 2016
Nostalgia
Estive em Leiria este fim-de-semana durante três horas.
Foram os pequenos momentos e os pormenores insignificantes que me fizeram recordar uma definição de nostalgia que li mais que uma vez mas que agora não me lembro o que dizia.
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
quarta-feira, 9 de novembro de 2016
quinta-feira, 3 de novembro de 2016
terça-feira, 1 de novembro de 2016
I’m definitely the coming home for Christmas to spend it with my mother type
You're writing your life story?!
You bet i am!
Am i in it?
You just entered...
You bet i am!
Am i in it?
You just entered...
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