sexta-feira, 30 de dezembro de 2016
domingo, 25 de dezembro de 2016
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
sexta-feira, 16 de dezembro de 2016
Desliguemos as luzes
Tragic suicide note of Aleppo nurse who killed herself to avoid rape by Syrian army
quinta-feira, 15 de dezembro de 2016
Ontem, em Paris, as luzes da Torre Eiffel foram desligadas em solidariedade com as pessoas de Aleppo. Finalmente o mundo respirou de alívio! Até eu, que me estou completamente a cagar para a Síria, dormi com a sensação de dever cumprido.
Felizmente alguém decidiu tomar medidas a sério. Em memória de Aleppo, esta noite, na Torre Eiffel, ninguém vê a ponta dum corno! Foda-se!
Caminhamos, a passos lentos mas firmes, para um lugar melhor.
Felizmente alguém decidiu tomar medidas a sério. Em memória de Aleppo, esta noite, na Torre Eiffel, ninguém vê a ponta dum corno! Foda-se!
Caminhamos, a passos lentos mas firmes, para um lugar melhor.
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
Portugal, Portugal, Portugal... és atrasado mental
Dei por mim no escritório a cantar e dançar esta música. É sinal que estou novamente a evoluir no sentido positivo.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
Amar-te-ia de maneira igual mesmo que fosses totalmente diferente
"Tenho de aceitar, por humildade, que, secretamente, sou de esquerda pela mesma sem razão que sou do Benfica e não consigo conceber que pessoas de quem gosto muito sejam do Sporting. Talvez a explicação mais elaborada, até filosoficamente, para este facto fosse a do meu querido amigo, o actor Artur Semedo, que ao perguntarem-lhe por que motivo se sentia do Benfica respondeu
- Porque não sou homem às riscas, sou homem de uma cor só
e, como isto é uma resposta incompreensível, deve ser verdadeira. Claro que a gente pode voltar tudo do avesso e arranjar as explicações mais lógicas do mundo: o problema é que aquilo que nos move, até na aparência intelectualmente, não é racional mas o afectivo. Não se chega, pelo raciocínio, a uma verdade última. Chega-se por uma intuição fulgurante, uma espécie de iluminação. Quando as pessoas dizem, sei lá
- Tenho o nome dele debaixo da língua
não o têm debaixo da língua, têm-no debaixo de uma camada de células cinzentas que se tornaram opacas e que, com sorte, talvez se iluminem."
- Porque não sou homem às riscas, sou homem de uma cor só
e, como isto é uma resposta incompreensível, deve ser verdadeira. Claro que a gente pode voltar tudo do avesso e arranjar as explicações mais lógicas do mundo: o problema é que aquilo que nos move, até na aparência intelectualmente, não é racional mas o afectivo. Não se chega, pelo raciocínio, a uma verdade última. Chega-se por uma intuição fulgurante, uma espécie de iluminação. Quando as pessoas dizem, sei lá
- Tenho o nome dele debaixo da língua
não o têm debaixo da língua, têm-no debaixo de uma camada de células cinzentas que se tornaram opacas e que, com sorte, talvez se iluminem."
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
ALA
"Conheci o homem mais rico do mundo quando trabalhava no Hospital Miguel Bombarda e ele já lá estava internado há muitos anos. Era um sujeito alto, com uma bela figura e uma bela cabeça, de setenta e tal anos, elegante, educado, simpático ou, melhor, condescendente porque era bem seguro da sua fortuna. Antes do hospital, quando andava cá por fora, tinha sido campino, depois começou com uns sintomas estranhos e um médico lá do Ribatejo, de conluio com a família, arranjou maneira de o fechar numa enfermaria psiquiátrica. Tinha, achavam eles, um delírio de grandeza, os psiquiatras, que gostam de complicar coisas simples, chamavam-lhe delírio de grandeza e eu, todo doutor, sustentava que aquilo de que ele sofria era uma sífilis quaternária que ninguém se lembrara de tratar com penicilina. Mas era apenas um internozito do primeiro ano, chegado há pouco daqueles horrores de África, onde uns rapazes nossos,
de sangue na guelra, andavam a meter as coisas nos eixos e, evidentemente, o que eu pensava não valia um tuste. Bom. O facto é que o homem mais rico do mundo, sempre impecavelmente barbeado e de bigode aristocrático por lá estava numa enfermaria, diferente de todos os outros pelo seu porte ducal. Chamava-se Manuel, mas toda a gente, doutores, enfermeiros, empregados, doentes, etc., o tratava por D. Manuel. Não por troça, por respeito.
O D. Manuel, consciente da sua superioridade, tratava o pessoal por “meninos”. Não estendia a mão a ninguém: por vezes, em momentos de afabilidade ocasional, oferecia-nos alguns dedos da mão esquerda e era tudo, e obviamente compreensível: tratava-se do maior magnata do Universo. Era rei de Portugal, claro, mas a sua interminável fortuna espalhava-se pelo mundo. Lembro-me que além de outras miudezas possuía as minas do Catanga, o Casino de Monte Carlo, a Fundação Gulbenkian, a maior parte da Europa, o Brasil, todos os cow-boys da América, todas as baleias do Polo e a cidade de Hong Kong, que dirigia com mão de ferro porque, como ele dizia e com razão, com os chineses temos de andar a pau dado que tudo neles era em bico. Não falava muito, não nos prestava muita atenção
(éramos seus vassalos)
mas simpatizava comigo. Por exemplo às vezes passava- -me, em bocados de papel, cheques de milhões de contos, todos preenchidos por ele, e recomendava-me
– Agora veja lá, não gaste tudo de uma vez
de modo que eu andava sempre cheio de massa. Volta e meia chamava-me com um sinalzinho discreto de cabeça, puxava-me para um canto e cochichava de rei para súbdito
– O menino faça o favor de dizer ao meu primo Calouste Gulbenkian que eu não ando nada contente
com a Fundação. Se ele não me põe aquilo nos eixos tenho que o despedir.
Eu fazia que sim
(ninguém se atrevia a contrariar o D. Manuel)
e passados tempos ele apoiava-me com uma satisfação contida
– Graças a si a Fundação está melhorzinha
o que, felizmente, lhe dava mais tempo para se concentrar na gestão das minas do Catanga onde havia umas maçadas
– Tenho por lá pretos a mais
que o D. Manuel, segundo me contou, ia endireitando numa mistura de chicotadas e oferta de óculos escuros e pulseiras que, segundo ele, era aquilo de que os pretos mais gostavam.
Uma noite em que estava de serviço vieram chamar-me porque o D. Manuel não deixava dormir ninguém. De janela aberta da enfermaria gritava aos berros para o escuro
– Para a direita, para a esquerda, mais acima, mais abaixo, mais depressa
ordens que ninguém compreendia e impediam a paz e o sono a toda a gente, para além de excitarem os internados. Lá fui eu às três da manhã e de facto o chinfrim do D. Manuel era imenso. Foi um trabalhão para o tirar da janela, sentá-lo numa cadeira e fazê-lo explicar o que se passava, a mim e a uma horda de enfermeiros de seringa em riste. Com muito trabalho lá consegui que o D. Manuel, mais calmo, contasse. Como eu sabia
(como o menino sabe)
eu tenho a Espanha toda e vai por lá uma seca que não acaba, que me está a dar cabo das colheitas. Então mandei pôr vinte mil cavalos na praia de Espanha, porque em Espanha aquilo que não é campo é praia, e mandei ao pessoal galoparem na areia, a toda a brida. Ao fim de uma hora, quando já estavam bem suados, obriguei-os a entrar nas ondas. Claro que o suor quente, dentro das ondas frias, se transformou em nuvem. E agora estou a guiar aquelas nuvens cheias de chuva na direcção dos campos secos, faço-a cair sobre o trigo moribundo e vou ter uma das maiores colheitas dos últimos anos. No silêncio que se seguiu tirou uma beata de trás da orelha e acendeu-a num silêncio triunfal. Isto com os enfermeiros das seringas de boca aberta e eu feliz por estar diante de um homem de génio. De modo que o deixei continuar aos berros, a guiar nuvens, até a Espanha se tornar fértil."
(éramos seus vassalos)
mas simpatizava comigo. Por exemplo às vezes passava- -me, em bocados de papel, cheques de milhões de contos, todos preenchidos por ele, e recomendava-me
– Agora veja lá, não gaste tudo de uma vez
de modo que eu andava sempre cheio de massa. Volta e meia chamava-me com um sinalzinho discreto de cabeça, puxava-me para um canto e cochichava de rei para súbdito
– O menino faça o favor de dizer ao meu primo Calouste Gulbenkian que eu não ando nada contente
com a Fundação. Se ele não me põe aquilo nos eixos tenho que o despedir.
Eu fazia que sim
(ninguém se atrevia a contrariar o D. Manuel)
e passados tempos ele apoiava-me com uma satisfação contida
– Graças a si a Fundação está melhorzinha
o que, felizmente, lhe dava mais tempo para se concentrar na gestão das minas do Catanga onde havia umas maçadas
– Tenho por lá pretos a mais
que o D. Manuel, segundo me contou, ia endireitando numa mistura de chicotadas e oferta de óculos escuros e pulseiras que, segundo ele, era aquilo de que os pretos mais gostavam.
Uma noite em que estava de serviço vieram chamar-me porque o D. Manuel não deixava dormir ninguém. De janela aberta da enfermaria gritava aos berros para o escuro
– Para a direita, para a esquerda, mais acima, mais abaixo, mais depressa
ordens que ninguém compreendia e impediam a paz e o sono a toda a gente, para além de excitarem os internados. Lá fui eu às três da manhã e de facto o chinfrim do D. Manuel era imenso. Foi um trabalhão para o tirar da janela, sentá-lo numa cadeira e fazê-lo explicar o que se passava, a mim e a uma horda de enfermeiros de seringa em riste. Com muito trabalho lá consegui que o D. Manuel, mais calmo, contasse. Como eu sabia
(como o menino sabe)
eu tenho a Espanha toda e vai por lá uma seca que não acaba, que me está a dar cabo das colheitas. Então mandei pôr vinte mil cavalos na praia de Espanha, porque em Espanha aquilo que não é campo é praia, e mandei ao pessoal galoparem na areia, a toda a brida. Ao fim de uma hora, quando já estavam bem suados, obriguei-os a entrar nas ondas. Claro que o suor quente, dentro das ondas frias, se transformou em nuvem. E agora estou a guiar aquelas nuvens cheias de chuva na direcção dos campos secos, faço-a cair sobre o trigo moribundo e vou ter uma das maiores colheitas dos últimos anos. No silêncio que se seguiu tirou uma beata de trás da orelha e acendeu-a num silêncio triunfal. Isto com os enfermeiros das seringas de boca aberta e eu feliz por estar diante de um homem de génio. De modo que o deixei continuar aos berros, a guiar nuvens, até a Espanha se tornar fértil."
domingo, 4 de dezembro de 2016
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